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domingo, 31 de maio de 2026

QUANTOS PRETOS? >> Sandra Modesto











Eu sempre gostei de teatro. Na minha adolescência eu escrevia monólogos e imaginava que era, sim, a melhor atriz nacional da década de setenta. No quintal da casa cheia de bananeiras, sol das quatro iluminado, palco verde natural. Era este, o cenário que eu tinha. O melhor de todos. A plateia mínima. E lá estava a dona da história.  

Encenando para um publico com apenas quatro pessoas, minhas irmãs aplaudindo.  Às vezes, pouco é muito.

E no susto, a vida correu.

Estamos em maio de 2026. Ontem, eu relembrei pro Gabriel, nossa conversa de março sobre minha ida ao teatro assistir “Rita Lee- Uma autobiografia” em Uberlândia.

O espetáculo foi lindo. Muito empolgada e emocionada comecei a contar pra ele.

Falei, falei, como se o mundo fosse acabar. Com olhar atento, ele arregalou os olhos cor de jabuticaba.

_ Quanto você pagou mãe?  

_ Uai, paguei meia-entrada por causa da minha idade.

_ Foi caro.

_Mas, Gabriel.

Quantos pretos? Mãe, quantos pretos tinham no teatro?

Voltei o meu olhar para o público quando cheguei e quando saí. Inúmeros brancos.

  

A tarde se despedindo, meu café à espera desde o início da conversa. Percebi então que, mãe nem sempre ensina. Mãe aprende. Principalmente sobre questões raciais.

  Parafraseando o cineasta ituiutabano, João Batista de Andrade:

“É preciso ampliar o acesso, ainda ridículo do povo brasileiro ao TEATRO”.

Do povo preto.

Eu e o Gabriel temos nossos momentos de conversas.

E, sobre o preço do teatro, na conversa de ontem, ele acrescentou:

_ O preço do cinema, também é caro, mãe.

Eu acrescentei:

Livros.

_ Não, livro tem os sebos, bibliotecas públicas, muitas opções.

Verdade. Tenho 350 exemplares na minha biblioteca física. Haja livros para um espaço ínfimo. Prometo não comprar mais livros. Mas é mentira.

domingo, 18 de maio de 2025

Por enquanto, outono

 


Os sóis dos domingos dessa estação me levam a vaguear. Visto minha calça legging, uma blusa confortável, nos pés, tênis e meias para o meu passeio pelas ruas próximas.

 Resolvo caminhar pela praça. Subo a rampa, desço pela escada, na verdade, uma atividade física gostosa. Olho a decoração grafitada, admiro a arte exposta. Quem passa, limpa a câmera do celular e registra a arte de rua. É o bairro Natal. Bairro de periferia. 

E assim, sigo meu caminho com o sol tímido, meus passos fortes e a suavidade da vida que eu invento. Talvez recriar seja o verbo mais certeiro na minha caminhada. Passo perto de uma turma de garotos jogando bola. Observo. Tinha um garoto sem camisa e com uma calça de malha surrada. Alto, magro. Bonito, a pele brilhava diante do sol. Tinha um baixinho com camiseta e bermuda.

E mais uns três, mas o diálogo, a conversa entre eles prendeu minha atenção.

 “E o Vinicius, hein”?

 “Pois é”.

­_ Ou, o Vinícius era louco. Pô, que saudades daquele tempo!

_ Bons tempos! Né? Bons tempos. Tempos que não voltam mais.

Fiquei intrigada. Os meninos, pela aparência, tinham de 13 a 16 anos.

E já tinham saudades do passado?

O que será que aconteceu com Vinicius? Mudou de cidade? Morreu? Foi preso?

Sim, foi tão importante que está preso nas memórias da turma. E marcou um golaço no meu domingo de outono.

É hora do café forte, sem açúcar. Mas com afeto.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

NAQUELA ESTAÇÃO>> Sandra Modesto

 Naquela estação

Eu tinha 15 anos e uma noite perdida no tempo. Era inverno, era uma festa de despedida na escola. Quase todos me notaram e senti que era por causa da minha roupa. Meu collant branco com mangas compridas, uma calça de brim azul e um par de seios eriçados. Pedro me tirou para dançar, o amigo de meu pai que estava passando uns dias lá em casa. Tocava violão. Eu gostava quando ele cantava.

 Mas na noite da minha primeira liberdade eu flutuava na pista de dança, um moço de olhos azuis, cabelo cacheado com perfil de boa pinta, dançou comigo, me puxou até o fim do corredor, lascou um beijo na minha boca, passeou a língua na minha acreditando que podia tudo, e foi tocando meu corpo. Eu fugi. Catei minhas forças até chegar ao bar da esquina.

“Seu Ernesto, tem caipirinha?”

“E você bebe, menina?”

“Não sei.”

Cheguei antes das onze, minha mãe dormindo no sofá, o aparelho de TV ligado sozinho pelo canto. No meu quarto eu limpei minha boca, não pelo gosto do álcool, sim por causa do beijo que eu não pedi.

No café da manhã eu cantava em silêncio e rezava para o Pedro ir embora.

Meu tio pegou a gaita como sempre o fazia.  Entoando uma canção ao amanhecer, nas tardes cabíveis e em noites chuvosas.

Pedro vai embora amanhã. Tomara que não volte nunca mais.

Nesses anos quando a vida sopra, perdi meu tio, minha mãe foi velada na sala da nossa casa, eu tenho dois filhos. E meu pai, também morreu. Antes da minha mãe.

É quase verão. A foto dos meus pais está rasgada, porque estava num álbum e, abruptamente, eu puxei.

Acordei quando minha coluna fez um estalo: crec!

Meus filhos querem almoçar.

Por que eles sentem tanta fome?

A pia amontoada de louças. Minha coluna não está tão ereta e tomei um analgésico para engolir a dor.

É cada história presa nessa vida. Por isso eu conto.

“Mãe, você escreve?”

“Escrevo. Só não gosto de cozinhar.”

 Eu escrevo porque leio, viu?

Vinícius me olhou, balançou suavemente a cabeça, entrou no quarto, fechou a porta com uma placa: Não enche.

Vitória foi estudar com a namorada.

E muitos anos se passaram. Afonso, o último a entrar na história, me encanta com uma canção de amor.

Depois de trinta e cinco anos juntos num mesmo lar, nem sempre doce, a gente ainda se amava. É um caso de amor em meio a janeiros sorrateiramente manso e forte.

Soube que o seu Ernesto toca um bar na praça da cidade. Com uma clientela fiel. E tem caipirinha. Mas ele já tá velho demais pra vida noturna.

A escola fechou. Num estalo tudo muda no corpo, na vida. Na varanda, deslizo meu corpo no chão como uma menina. Aquela menina de 15 anos me abraça.

Pedi uma cerveja no bar da esquina. Espero não chorar sozinha igual minha mãe quando cortava cebolas.


domingo, 21 de janeiro de 2024


 










Quarto turno

Eu soube há pouco tempo a respeito de um campeonato de ioiô.

Era uma tarde quase no final, mas o café esfriava, enquanto eu era apenas uma senhora de pernas pro ar escolhendo um filme para assistir.

De repente uma num voz de um jovem com mais de 1,90 cm:

“Mãe, você sabe onde vende ioiô”? Eu preciso muito.

_ Espera aí. Na lojinha da esquina tem. Chegando à lojinha, que vende tudo, o diálogo:

Moça tem ioiô?

Tem. É bom, né? Criança gosta. (risos). Se ela soubesse a idade de quem queria...

Na volta pra casa, já fui avisando.

Eu achei. Vai comprar.

Ele chegou e, parecia uma criança com o brinquedo enrolado nos dedos fazendo mil malabarismos. Observei a cena.

_ Mãe, eu participava de campeonatos de ioiô quando eu era criança. Venci muitos. Não lembra? A gente morava no bairro Junqueira, eu brincava na rua, um cara organizava os campeonatos, a molecada se divertia muito.

_ Não me lembro.

Ah, mãe, é porque, na época, você trabalhava quatro turnos.

Ele continuou brincando. Eu olhei para o tempo. Arrebatada com a descoberta do quarto turno. Sim, eu trabalhava o primeiro turno, o segundo turno, o terceiro turno. O quarto, bem, esse era o turno quando eu chegava à minha casa, organizava as tarefas domésticas, verificava tarefas escolares.

Cenários desse trabalho invisível, não remunerado, que a gente faz.

Por isso, atualmente, eu tenho a preguiça como uma grande companheira.

Daqui a 5 dias meus 63 anos vão chegar. Vou abrir a porta com um bolo da padaria.


domingo, 27 de agosto de 2023

O BAR DOS MEUS SONHOS >> Sandra Modesto


 










Éramos jovens e no último dia das noites de sextas- feiras, o bar nos chamava. Risadas e embriaguez naquela turma, às vezes aquietava uma mulher, aquietava o cansaço de uma semana inteira à espera do encontro. Lá, era bonito. Catávamos esperanças, todas no mesmo espaço. Lembro-me de um violão, uma professora cantava fado. Um moço perto dos cinquenta anos. Pedia:

­_ Canta Reginaldo Rossi.

O moço gritava...

“Toca Raul”

Eu emendava:

_ Pode ser Chico Buarque?

O garçom, amigo de todas e todos, servia- nos, cantarolando baixinho:

“Já cansei de escutar centenas de casos de amor”

Pois então, seu garçom, cadê o Karaokê? A gente faz um desafio pra testar quem desafina melhor.

Eu só cantava chuva de prata porque meu tom é agudo.  Dizem né?

“Um beijo molhado de luz sela o nosso amor”

Mas eu sei de cor e canto com boa entonação, “O bêbado e o equilibrista”. No chuveiro, por causa da acústica do banheiro.

Ontem, quebrei um silêncio na sala e disse pra o meu filho:

O Tony Ramos não tem rede social e Glória Pires não tem Watsapp.

_ O Quê? Mãe! Caiu na gargalhada.

Gente é banal, eu sei. Aprendi a quebrar silêncios, para lembrar de bar.

À noite, não pedi ajuda e abri uma cerveja em lata. Não deu certo porque minha força não foi suficiente, achei um abridor. E o lacre caiu dentro do copo. E a cerveja estava quente.

Ainda bem que é o último domingo de agosto. Em setembro, volto com o bar, uns petiscos e muitos sonhos.


domingo, 6 de agosto de 2023

A VENDEDORA >> Sandra Modesto


 










A VENDEDORA (26 de junho de 2022)

Tudo começou em fevereiro quando eu anunciei pelas redes sociais: “Em breve"

Depois: "Lançamento em abril"

E o alvoroço se fez. Qual o produto que eu ia lançar? Eu me segurei no limite da ansiedade.

Recebi o PDF do livro para revisão, a foto da capa do livro, o miolo do livro. Tudo era livro. Tudo. Assim como a vida, que às vezes, nos leva  a pedir socorro

Bom, o "Era Sábado" é um livro de crônicas. Como divulgar o livro sem ele nas mãos? Eis minhas ideias...

A epígrafe é o trecho da letra de João e Maria de Chico Buarque e Sivuca. Eu postei uma imagem da música explicando que a primeira crônica do livro tinha o título da música.  

O David, da crônica “A Casa de Davi", é o meu vizinho pequerrucho, ele perdeu o vovô  no final de 2020. Chorou pela calçada da minha casa. Abri o portão, abracei- o bem forte e disse:

“Seu vovô morreu, mas estará sempre vivo aqui oh, dentro do seu coração."

Vi muitas meninas na  calçada da casa do David. Por  vários dias. Vieram para se despedir do avô. Fui até lá. Conversamos sobre sonhos, sobre o adolescer. Tiramos uma foto com o sol aberto, a luz estava linda. Divulguei a foto e contei sobre minha personagem da vida real.  Mas cadê o livro? Chegou dia 2 de maio. 4 de maio, lançamento virtual com o editor. Via Youtube.

O lançamento presencial foi dia 10. Com filho, marido, muitas professoras e muitos professores, muitas amigas do meu filho, me prestigiaram comprando o exemplar. 

Um dia antes, eu fui vacinada com a quarta dose da vacina. Ainda estou vendedora.

Pelo status do Watsapp, pelo Twitter, pelo story do Instagram. Dos 129 livros, 1 é meu. 128 livros. Restam 38. Calma, gente. Eu espalhei livros.

Nas bibliotecas de rua, na biblioteca da fundação cultural do bairro onde eu moro, na biblioteca municipal, presenteei quem não pode comprar, fiz parcerias, sou a autora que pariu o terceiro livro. Cuido dele. Porque para ficar vivo na memória é precioso muito cuidado.

O mais bacana é receber fotos dos leitores com o livro e suas leituras sobre minhas crônicas.

E assim é Era Sábado. Com jeito de gentes. 

Por enquanto, preparando o quarto livro.

“De novo com a coluna ereta, Juntar os cacos, ir à luta

Manter o rumo e a cadência

“Esconjurar a ignorância, que tal”? (Chico Buarque de Holanda e Hamilton de Holanda)

 


domingo, 11 de junho de 2023

SOBRE UMA VOLTA AO PASSADO >> Sandra Modesto

 











Sobre uma volta ao passado.

No final dos anos setenta, minha mãe ficou preocupada e, conversando com uma amiga que vira e mexe estava lá em casa, confessou:

“Não sei o que eu faço com a Sandra, quando ela casar. Ela não sabe nada de dona de casa. Não sabe cozinha. E nem quer aprender. Fico preocupada.”

O que minha mãe queria ouvir era uma concordância e uma ajuda. Mas...

“Jacinta, sua filha é das letras”. Você ainda não entendeu?

Um sol ameno naquele mês de junho. Naquela tarde as duas amigas tomavam chá de canela e comiam biscoito frito de polvilho. O centro da mesa forrada com toalha xadrez, às xícaras esmaltadas, uma moça de 17 anos com mania de ouvir conversa de adulto às escondidas, ligou o rádio, pegou um caderno e escreveu a primeira crônica. Sem saber de gênero literário, sabia apenas que a conversa entre a mãe e dona Luísa, gerou vários pensamentos.

Nos anos oitenta, a filha da dona Jacinta escolheu o curso de Letras.

Pois então...

Ao ver a filha estudando a mãe confessou:

“Filha estuda mesmo. Para ter uma profissão e não depender de dinheiro de marido.”

A vida tem lá seus encantos.  Nesta tarde fria, leio um livro, corro até a cozinha e tomo café forte, com pão de queijo, um bolo de fubá. Quem preparou o café foi meu marido, mãe. Ando muito ocupada. Porque estou preparando o meu novo livro.


domingo, 12 de fevereiro de 2023

SINTONIA >> Sandra Modesto

 SINTONIA

De vez em quando, enquanto meu marido prepara o almoço,
O cheiro do arroz afogado perfumando minha sala, o lugar onde eu pensava:
" Minha crônica!"
Corri à cozinha e, numa caixa de som enorme tocava sintonia. ( Moraes Moreira)
Sim, temos vinil, CD, vitrola e caixa de som amplificada.
A música corria alta. Minha vontade também.
Agarrei meu marido e a gente dançou agarradinhos.
Podia ser uma marchinha de carnaval, né?
Mas abraçar colando o corpo, num roçar pela nuca, cheiro de pele cruzando com alho e cebola, beijo pra arrepiar os 32 anos juntos numa história. Nenhum casamento é perfeito. Mas música, beijo gostoso e um eu te amo nas entrelinhas
...
Não esperem o amor de vocês tomarem a iniciativa.
Agarrem o amor de vocês.
Se possível, ao som de sintonia.
" Que é nesse vai e vem
Nesse vai e vem
Que a gente se dá bem
Que a gente se atrapalha"


domingo, 24 de julho de 2022

CONSTRUÇÃO >> Sandra Modesto

 De tarde o barulho se aquieta. Depois das cinco e meia, que é quando a empreitada entoa a canção da despedida.

Amanhã começa tudo de novo, mas pode ser com outros acordes. Porque o som da britadeira, dos operários passando a pá de cal com força pelo patamar. Raspando as mãos como se fossem quadros de arte, respingando tintas pela janela do meu quarto, zonzo e inocente. Eu sentei mirando naquele espetáculo bêbado os cacos de telha voando na minha cama.   

Quisera eu soubesse quanto tempo duraria a eternidade.

Nessa garupa desse veículo chamado vida.

Antes dessa história, antes desses dias. Mas deixa eu contar o início...

Moramos numa casa há treze anos. Uma pré-adolescência afinal, envolta em planos de marcar as linhas do coração. Como se a morada fosse o corpo da gente. Que fala, ouve, canta, lê e silencia.

Barulheira agitando meu cérebro, escuridão em três quartos e banheiros. Luzes acesas por que o sol fugiu, esmagando o brilho devorado em quase duas estações.

A gente teve uma conversa e a possibilidade de procurar outro canto pra viver entrou no jogo. Mas ainda tinha sol no quintal imenso, o Chico Buarque Modesto brilhava e se encantava. No jardim, também.

Foi quando afinamos a voz em um último som decisivo: “Vamos ficar por enquanto”.

A paixão pela casa. Como se fosse única.

E isso me possibilitou a ideia de conversar com os pedreiros. São eles que constroem tijolo por tijolo num desenho mágico.

 

domingo, 26 de junho de 2022

A VENDEDORA >> Sandra Modesto

 

Tudo começou em fevereiro quando eu anunciei pelas redes sociais: “Em breve"

Depois: "Lançamento em abril"

E o alvoroço se fez. Qual o produto que eu ia lançar? Eu me segurei no limite da ansiedade.

Recebi o PDF do livro para revisão, a foto da capa do livro, o miolo do livro. Tudo era livro. Tudo. Assim como a vida, que às vezes, nos leva  a pedir socorro

Bom, o "Era Sábado" é um livro de crônicas. Como divulgar o livro sem ele nas mãos? Eis minhas ideias...

A epígrafe é o trecho da letra de João e Maria de Chico Buarque e Sivuca. Eu postei uma imagem da música explicando que a primeira crônica do livro tinha o título da música.  

O David, da crônica “A Casa de Davi", é o meu vizinho pequerrucho, ele perdeu o vovô  no final de 2020. Chorou pela calçada da minha casa. Abri o portão, abracei- o bem forte e disse:

“Seu vovô morreu, mas estará sempre vivo aqui oh, dentro do seu coração."

Vi muitas meninas na  calçada da casa do David. Por  vários dias. Vieram para se despedir do avô. Fui até lá. Conversamos sobre sonhos, sobre o adolescer. Tiramos uma foto com o sol aberto, a luz estava linda. Divulguei a foto e contei sobre minha personagem da vida real.  Mas cadê o livro? Chegou dia 2 de maio. 4 de maio, lançamento virtual com o editor. Via Youtube.

O lançamento presencial foi dia 10. Com filho, marido, muitas professoras e muitos professores, muitas amigas do meu filho, me prestigiaram comprando o exemplar. 

Um dia antes, eu fui vacinada com a quarta dose da vacina. Ainda estou vendedora. Pelo status do Watsapp, pelo Twitter, pelo story do Instagram. Dos 129 livros, 1 é meu. 128 livros. Restam 38. Calma, gente. Eu espalhei livros.

Nas bibliotecas de rua, na biblioteca da fundação cultural do bairro onde eu moro, na biblioteca municipal, presenteei quem não pode comprar, fiz parcerias, sou a autora que pariu o terceiro livro. Cuido dele. Porque um bebê precisa de muito cuidado.

O mais bacana é receber fotos dos leitores com o livro e suas leituras sobre minhas crônicas.

E assim é Era Sábado. Com jeito de gentes. 

Por enquanto, preparando o segundo lançamento presencial. Que tal?

“De novo com a coluna ereta

Juntar os cacos, ir à luta

Manter o rumo e a cadência

“Esconjurar a ignorância, que tal”? (Chico Buarque de Holanda e Hamilton de Holanda)

 

A PROSA E O POEMA >> Sandra Modesto

 

O que é prosa? O caderno caiu no chão da cozinha. Ela teve preguiça diante da cena por tanto amor. Que agora, esfria e acende. Rima e se faz num sábado.

Pegou o ônibus no espaço de sempre.

Acenou pra o motorista. Há trinta anos o percurso contínuo, olhos e ouvidos atentos às conversas. Renderiam crônicas. Encontros. 

Queria uma prosa boa, uma história quente, não sabia na verdade, se queria uma trepada ou sexo com amor. Ah, naqueles tempos em que nada impedia uma paixão que fervia por todos os poros, no carro, no canto do amanhecer, a gente tinha, 20, 30 anos. Aos sessenta anos... Bem, depois disso, no colchão macio é uma boa pedida.

Prosa é a conversa de todos os dias. É o abraço no cotidiano. Um livro de crônicas requer um olhar apurado, ao mesmo tempo, é um gênero merecedor de prêmios. Por isso, eu adquiri vários títulos clássicos e contemporâneos escritos por mulheres.

O cantor Gilberto Gil disse um dia desses: “É preciso acabar com essa história de achar que a cultura é uma coisa extraordinária. Cultura é ordinária!”.

Escrevendo este texto ouvindo Drão perguntei:

“Cadê aquele seu poema?” (Sim, foi uma mensagem no Watsapp.).

Qual poema? Tem mais de um? Tenho.

Onde estão?

Não sei.

Eu me lembro de uma pasta que eu fiz no computador, pra ele. Procurei.

 “Entre minhas mãos tu escapas como se não existisse amor
Sob a retina de meus olhos vejo-te dobrar a esquina
Não sei se voltarás de um deserto ou de um oceano.
Se ainda frágil ou mais madura.
Ao som dos meus quase risos quase lágrimas
Ouço teus passos todas às vezes mais silenciosos
Não sei se te ouvirei, meio a melodia dos teus beijos
tua boca a dizer "Te amo".
Amar é assim um desassossego”.

Lahus

Pra quem ele escreveu, eu não sei. Mas é foda!

 

domingo, 14 de novembro de 2021

NA FILA DO OSSO >> Sandra Modesto

 Eu enfiava a cara no trabalho. Trabalhava mesmo. A sopinha pronta da Nestlé, não perdia tempo com esse negócio de comida caseira. As fraldas descartáveis, o iogurte que ajudava no crescimento, a camiseta de grife, o bife de filé. Por isso eu enfiava a cara no trabalho. A dona Cida babá das crianças do mesmo prédio que eu, me olhava de um jeito como se perguntasse por que eu não parava em casa. Se eu não enfiasse a cara no trabalho, eu não moraria naquele prédio. Meus filhos em escola pública? Nem pensar. E a bola cara para jogar com os  amiguinhos ricos, é por isso. Enfiei muito a cara no trabalho. Minha filha fazia inglês na Cultura Inglesa. Currículo impecável. Valia a pena pagar esses privilégios. Ah daqui a pouco eu vou trabalhar, amanhã eu vou trabalhar. 32 anos assim nessa labuta. É noite. Na tela da TV, o jogo do flamengo. Fico plantada com a bunda no sofá vendo o jogo.

Esse time sempre ganha?

Meu filho e meu marido gritam gooool como se o mundo fosse acabar.

Abandono o clima. Desligo o ar condicionado e pego o celular pra falar com a filha. Ela mora em outra cidade e trabalha numa multinacional por causa do tempo em que eu enfiava a cara no trabalho. Vou dormir rolando na cama comprada em dez prestações. Meu marido trabalha em duas escolas públicas. A gente mora numa casa alugada. É tão bom morar aqui. O Chico late muito alto como se cantasse Caetano. Ao acordar depois da noite vadia que invadiu meu sono, vou ao supermercado encher meio carrinho de compras. A dona Cida está velha. Não me reconheceu. Ela tentando comprar uma cartela de ovos, e os olhos famintos chegavam a brilhar. O moço anunciando a promoção do frango, da alcatra e do coxão mole.  Meus olhos reviveram a dona Cida quando ela enfiava a cara no prédio, brincando com os filhos da patroa. Ela nunca teve tempo para cuidar das filhas que ficavam na creche enquanto ela acarinhava Davi e Laura. Daqui a pouco tem futebol na TV. Hoje eu comemoro meu próprio gol. O grito feliz por não morrer de tanto trabalhar. Meu filho me conta da atual namorada: Elisa. A Elisa que tem uma irmã chamada Rita, um pai desconhecido e a mãe se chama Maria Aparecida.  Meu filho Disse que vai ao churrasco do aniversário da mãe de Elisa. Ele levou cervejas. A picanha e o filé de frango eu comprei pra dona Cida. 

domingo, 15 de agosto de 2021

PARA TODO MAL, A CURA >> Sandra Modesto


 










Antecipo que meu texto é um choro alegre de acalanto. Com gosto de pão de queijo quentinho e café forte.

Uma conversa em volta da mesa forrada na toalha colorida. Por aqui tudo tem vida. Cheiro, livros espalhados e petiscos pra beliscar enquanto assistimos futebol, filmes, shows.

E jogamos gargalhadas fora.

Apesar de um caos no país, a gente registra em vários ângulos, momentos da vacina contra Covid. Nossas alegrias atuais.

Estou imunizada com as duas doses da AstraZeneca.

Marido com a primeira dose.

Minha filha, também.

Amanhã, vai ser outro dia.

O dia do meu filho se vacinar!

Esperanças de recomeços. Sons de pandeiro e cantorias.

E isso é tudo!

Um texto breve porque o domingo quer assim

domingo, 25 de julho de 2021

BLOCO DE NOTAS >> Sandra Modesto

 Ao acordar, depois da noite vadia, que invadiu meu sono, Senti um cheiro preso de um passado recente.

Era um perfume agridoce misturado às coisas do meu entrelaçar nesses dezesseis meses na vida nova. Imprevista.

Correndo dores. Choros sem despedidas. Álbum e esconderijo. Tenho lágrimas diárias diante de um país com feminicídios, gente passando fome, mulheres e crianças negras morrendo todos os dias.

É a coisa não tá preta. Porque se a coisa estivesse preta, a coisa estaria boa.
Pego um caderno. Minha memória dá um branco. Momentaneamente.

Nesse espaço entre manhãs e noites, o país pelo avesso. Entendo que, a Arte resiste. E nos Salva.

De maio a julho, na imensidão das leituras: O avesso da pele (Jeferson Tenório). Ao pó (Morgana Kretzmann). Os tais caquinhos (Natércia Pontes). Suíte Tóquio (Giovana Madalosso).  Copo vazio (Natalia Timerman) Risque esta palavra (Ana Maria Marques). Um buraco com meu nome (Jarid Arraes), Doramar ou a Odisseia (Itamar Vieira Júnior), Pequena coreografia do adeus (Aline Bei). Água de barrela (Eliane Alves Cruz). Apague a luz se for chorar (Fabiane Guimarães) A palavra que resta (Stenio Gardel), Homens pretos (não) choram (Stefano Volp).

 Assisti duas séries que me fizeram refletir: MANHÃS DE SETEMBRO- com a Liniker. COLÔNIA - Baseada no livro de Daniela Arbex: Holocausto brasileiro.

Recolho meus instantes e desligo o celular. Nessa madrugada de quinta- feira meio densa meio aflita.

* Esta crônica foi publicada hoje, no site cronicadodia.combr

 

 

domingo, 13 de junho de 2021

ERA SÁBADO


 










Um dia desses, senti saudades de um texto escrito há algum tempo. O título do danado eu não sabia. Lembrei-me de um pedaço. Pesquisei e lá estava ele. Quentinho, no frescor do prenúncio de uma tarde, alegre, densa, nesse turbilhão de emoções envolvido por todas e todos nós.

ERA SÁBADO

Há tempos ela estava sozinha. Recriando alguns trechos comendo sonho comprado na padaria da esquina.

Apesar do gosto amargo dos dias... Intercalou doçura, rasgos e seguiu. Nessa metade do ano.

Era sábado. As lojas comerciais abertas, homens comprando ramalhetes de flores. Mulheres escolhendo camisetas lisas, cuecas, sapatos de verniz. Os detalhes das pessoas desistindo dos preços, a sensação do não presentear.

A calmaria foi movendo a cidade. A praça principal refletia o adeus solar. Apenas algumas pessoas observando os cenários. Fernanda e Pedro esbarraram um no outro...

_ Oi, desculpa, eu sou meio distraída.

_ Não foi nada, imagine.  

_ Pedro.

_ Fernanda.

Era sábado... Temporada de inverno quase chegando, e, no era uma vez, uns passos de diversidade. Imersos desafios. A vida tomava o silêncio, os corações bebiam de tudo o que há nessa vida.

Fernanda amava Teresa e Pedro amava Joaquim.

A cidade amanheceu. Igrejas lotadas, promessas a Deus dará.

“Abri o jornal, pausei pra fazer xixi”.

Do lado de cá, estou eu...

“Ah, se houvesse zero Homofobia.”

Do lado de fora, nas casas, nas ruas, na vida, o amor segue como instituição de família tradicional. Ainda há muita luta pra fortalecer o arco- íris.

Que ele- O Amor! Desenhe os dias.


domingo, 2 de maio de 2021

NÃO ENTERRE MEUS FILHOS >> Sandra Modesto

 

A porta não estava fechada quando eu me aproximei do meu filho pra dar boa noite. O edredom embolado. Mas os cachos dos cabelos eu beijei.

Quando amanhece sempre depois das dez, me enterneço com o interrogatório da filha que mora em outra cidade.

_ Mãe, tudo bem?

_ Mãe, que dia você vai vacinar? Já sabe?

Respondo tudo.

Eu chorei ardido com o sal envolto no adeus a minha mãe

Ela não viu muitos netos virando marmanjos

Não abraçou as largas vitórias e derrotas das netas. Não riu com a bisneta.

Eu perdi os embaraços possíveis e suaves e neuróticos dos capítulos nesse espaço dos vinte e três anos sem minha mãe.

Não sei quem é Deus. Uma imagem, uma força, um guia? Um guru?

Penso que ele é um amanhã.  Uma brusca tarde no meio da minha busca grotesca.

Já me disseram que Deus é pai. Os deuses de muitas gentes. Cada pessoa tem um.

O meu é o embate invisível me socorrendo ao saber das perdas de tantas mães perdendo suas crias.

No acalanto busco o manto pra o meu filho e volto a beijar os cachos. Acordo buscando fotos da minha filha. O tempo é manso.

 Muitas vezes entendo o humor no amor. Nesse vai e vem de uma mãe imperfeita.

_ Mãe, tudo bem?

_ Tudo bem filha. Como está seu domingo?

meu filho acorda querendo uma torta de pão de forma sem frango desfiado.

_ Você não acha melhor um deliver?

_ Mãe!

 

domingo, 14 de fevereiro de 2021

MINHA VIDA VEGETARIANA >> Sandra Modesto












MINHA VIDA VEGETARIANA

Eu nasci numa família do interior de Minas e cresci comendo muita carne. Mas não faltaram frutas, saladas e legumes que eram degustados por uns, nem sempre por todos. Não sei se meu paladar é relevante neste texto, mas arroz com feijão e farinha é uma refeição protagonista no meu dia a dia. Na vida a gente carrega tantas histórias, tantas memórias e o cheiro de tudo.

No isolamento e convivência diária com filho e marido há silêncios, diálogos e relampejo de decisões. Optamos primeiramente, não comer carne uma vez por semana. Tudo bem. Eis que fomos mais além. Deixamos de comer carne.

Foi uma decisão difícil. E o churrasco? E o bife acebolado? E a bisteca? As iguarias que acompanham uma boa feijoada? A galinhada amarelinha? Poxa!

Meu filho conversou comigo me lembrando do sofrimento dos animais, do lucro dos pecuaristas, enfim, eu ouvi atenta. Bom, ser vegetariana aos sessenta anos poderia prejudicar minha saúde? Eu preciso de proteína. Consultei uma nutricionista para o aval final. Minha alimentação é rica em tudo. Eu adoro frutas, vegetais, grãos, castanhas. Posso retirar a carne com tranquilidade. Retirei.

E me veio à memória o frango vivo que minha mãe matava pra gente comer no almoço dos domingos. Eu era criança. O frango pulando com sangue escorrendo pelo pescoço, até ele morrer.  Depois ia pra uma panela com água quente, era depenado, picado...   

Quem gosta de carne não é inferior por gostar. Mas pense num molho de quiabo com abobrinha, uma couve refogada, uma manga e uma banana de sobremesa?

E berinjela á milanesa? Amo! Meu marido cuida do cardápio.

Comprei uma coleção de porta prato de crochê da minha irmã, pra exibir nessa minha nova vida.

   

RUA DOCE MISTÉRIO >> Sandra Modesto

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