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domingo, 31 de maio de 2026

QUANTOS PRETOS? >> Sandra Modesto











Eu sempre gostei de teatro. Na minha adolescência eu escrevia monólogos e imaginava que era, sim, a melhor atriz nacional da década de setenta. No quintal da casa cheia de bananeiras, sol das quatro iluminado, palco verde natural. Era este, o cenário que eu tinha. O melhor de todos. A plateia mínima. E lá estava a dona da história.  

Encenando para um publico com apenas quatro pessoas, minhas irmãs aplaudindo.  Às vezes, pouco é muito.

E no susto, a vida correu.

Estamos em maio de 2026. Ontem, eu relembrei pro Gabriel, nossa conversa de março sobre minha ida ao teatro assistir “Rita Lee- Uma autobiografia” em Uberlândia.

O espetáculo foi lindo. Muito empolgada e emocionada comecei a contar pra ele.

Falei, falei, como se o mundo fosse acabar. Com olhar atento, ele arregalou os olhos cor de jabuticaba.

_ Quanto você pagou mãe?  

_ Uai, paguei meia-entrada por causa da minha idade.

_ Foi caro.

_Mas, Gabriel.

Quantos pretos? Mãe, quantos pretos tinham no teatro?

Voltei o meu olhar para o público quando cheguei e quando saí. Inúmeros brancos.

  

A tarde se despedindo, meu café à espera desde o início da conversa. Percebi então que, mãe nem sempre ensina. Mãe aprende. Principalmente sobre questões raciais.

  Parafraseando o cineasta ituiutabano, João Batista de Andrade:

“É preciso ampliar o acesso, ainda ridículo do povo brasileiro ao TEATRO”.

Do povo preto.

Eu e o Gabriel temos nossos momentos de conversas.

E, sobre o preço do teatro, na conversa de ontem, ele acrescentou:

_ O preço do cinema, também é caro, mãe.

Eu acrescentei:

Livros.

_ Não, livro tem os sebos, bibliotecas públicas, muitas opções.

Verdade. Tenho 350 exemplares na minha biblioteca física. Haja livros para um espaço ínfimo. Prometo não comprar mais livros. Mas é mentira.

domingo, 18 de maio de 2025

Por enquanto, outono

 


Os sóis dos domingos dessa estação me levam a vaguear. Visto minha calça legging, uma blusa confortável, nos pés, tênis e meias para o meu passeio pelas ruas próximas.

 Resolvo caminhar pela praça. Subo a rampa, desço pela escada, na verdade, uma atividade física gostosa. Olho a decoração grafitada, admiro a arte exposta. Quem passa, limpa a câmera do celular e registra a arte de rua. É o bairro Natal. Bairro de periferia. 

E assim, sigo meu caminho com o sol tímido, meus passos fortes e a suavidade da vida que eu invento. Talvez recriar seja o verbo mais certeiro na minha caminhada. Passo perto de uma turma de garotos jogando bola. Observo. Tinha um garoto sem camisa e com uma calça de malha surrada. Alto, magro. Bonito, a pele brilhava diante do sol. Tinha um baixinho com camiseta e bermuda.

E mais uns três, mas o diálogo, a conversa entre eles prendeu minha atenção.

 “E o Vinicius, hein”?

 “Pois é”.

­_ Ou, o Vinícius era louco. Pô, que saudades daquele tempo!

_ Bons tempos! Né? Bons tempos. Tempos que não voltam mais.

Fiquei intrigada. Os meninos, pela aparência, tinham de 13 a 16 anos.

E já tinham saudades do passado?

O que será que aconteceu com Vinicius? Mudou de cidade? Morreu? Foi preso?

Sim, foi tão importante que está preso nas memórias da turma. E marcou um golaço no meu domingo de outono.

É hora do café forte, sem açúcar. Mas com afeto.

domingo, 29 de dezembro de 2024

Naquela mesa >> Sandra Modesto

 Naquela mesa

Os dezembros não são os mesmos desde a Pandemia. No dia 31 de dezembro do ano estarrecido, corroído no vazio de muitas famílias, como cantar em coro, adeus ano velho feliz ano novo?

O ano velho levou para sempre, os que  não estarão na última festa.

Dá pra dizer feliz ano novo olhando a mesa incompleta? Cadeiras vazias, olhares disfarçados tentando os risos fracos. Porque a vovó não está ali, o avô, as tias, os tios, a amiga, o amigo.

A professora que contou histórias, as conversas marcantes, agora distantes demais.

Elas e eles viraram covas. Nas setecentas mil vidas perdidas, seria espanto, reforçar que quatrocentos mil pessoas poderiam estar vivas? Por isso meu bem, no último dia de todos os anos, recolha sua dor, não ignore a miséria do Brasil de 2019/2022. Saboreie devagar ao comer pedaços de lombo assado, lembre- se que durante o governo do inelegível, pessoas enfrentaram a fila do osso. Cataram comida no lixo.

E se puder, assuma sua estranha paixão pela vida.

Naquela mesa incompleta. O forro branco escorrendo pelos cantos.

O feliz ano novo será meio assim, implacável na canção destoada. Feliz ano novo?

Não. Cada um vai chorar em silêncio

E recolher as sobras das saudades.

domingo, 21 de janeiro de 2024


 










Quarto turno

Eu soube há pouco tempo a respeito de um campeonato de ioiô.

Era uma tarde quase no final, mas o café esfriava, enquanto eu era apenas uma senhora de pernas pro ar escolhendo um filme para assistir.

De repente uma num voz de um jovem com mais de 1,90 cm:

“Mãe, você sabe onde vende ioiô”? Eu preciso muito.

_ Espera aí. Na lojinha da esquina tem. Chegando à lojinha, que vende tudo, o diálogo:

Moça tem ioiô?

Tem. É bom, né? Criança gosta. (risos). Se ela soubesse a idade de quem queria...

Na volta pra casa, já fui avisando.

Eu achei. Vai comprar.

Ele chegou e, parecia uma criança com o brinquedo enrolado nos dedos fazendo mil malabarismos. Observei a cena.

_ Mãe, eu participava de campeonatos de ioiô quando eu era criança. Venci muitos. Não lembra? A gente morava no bairro Junqueira, eu brincava na rua, um cara organizava os campeonatos, a molecada se divertia muito.

_ Não me lembro.

Ah, mãe, é porque, na época, você trabalhava quatro turnos.

Ele continuou brincando. Eu olhei para o tempo. Arrebatada com a descoberta do quarto turno. Sim, eu trabalhava o primeiro turno, o segundo turno, o terceiro turno. O quarto, bem, esse era o turno quando eu chegava à minha casa, organizava as tarefas domésticas, verificava tarefas escolares.

Cenários desse trabalho invisível, não remunerado, que a gente faz.

Por isso, atualmente, eu tenho a preguiça como uma grande companheira.

Daqui a 5 dias meus 63 anos vão chegar. Vou abrir a porta com um bolo da padaria.


domingo, 27 de agosto de 2023

O BAR DOS MEUS SONHOS >> Sandra Modesto


 










Éramos jovens e no último dia das noites de sextas- feiras, o bar nos chamava. Risadas e embriaguez naquela turma, às vezes aquietava uma mulher, aquietava o cansaço de uma semana inteira à espera do encontro. Lá, era bonito. Catávamos esperanças, todas no mesmo espaço. Lembro-me de um violão, uma professora cantava fado. Um moço perto dos cinquenta anos. Pedia:

­_ Canta Reginaldo Rossi.

O moço gritava...

“Toca Raul”

Eu emendava:

_ Pode ser Chico Buarque?

O garçom, amigo de todas e todos, servia- nos, cantarolando baixinho:

“Já cansei de escutar centenas de casos de amor”

Pois então, seu garçom, cadê o Karaokê? A gente faz um desafio pra testar quem desafina melhor.

Eu só cantava chuva de prata porque meu tom é agudo.  Dizem né?

“Um beijo molhado de luz sela o nosso amor”

Mas eu sei de cor e canto com boa entonação, “O bêbado e o equilibrista”. No chuveiro, por causa da acústica do banheiro.

Ontem, quebrei um silêncio na sala e disse pra o meu filho:

O Tony Ramos não tem rede social e Glória Pires não tem Watsapp.

_ O Quê? Mãe! Caiu na gargalhada.

Gente é banal, eu sei. Aprendi a quebrar silêncios, para lembrar de bar.

À noite, não pedi ajuda e abri uma cerveja em lata. Não deu certo porque minha força não foi suficiente, achei um abridor. E o lacre caiu dentro do copo. E a cerveja estava quente.

Ainda bem que é o último domingo de agosto. Em setembro, volto com o bar, uns petiscos e muitos sonhos.


domingo, 6 de agosto de 2023

A VENDEDORA >> Sandra Modesto


 










A VENDEDORA (26 de junho de 2022)

Tudo começou em fevereiro quando eu anunciei pelas redes sociais: “Em breve"

Depois: "Lançamento em abril"

E o alvoroço se fez. Qual o produto que eu ia lançar? Eu me segurei no limite da ansiedade.

Recebi o PDF do livro para revisão, a foto da capa do livro, o miolo do livro. Tudo era livro. Tudo. Assim como a vida, que às vezes, nos leva  a pedir socorro

Bom, o "Era Sábado" é um livro de crônicas. Como divulgar o livro sem ele nas mãos? Eis minhas ideias...

A epígrafe é o trecho da letra de João e Maria de Chico Buarque e Sivuca. Eu postei uma imagem da música explicando que a primeira crônica do livro tinha o título da música.  

O David, da crônica “A Casa de Davi", é o meu vizinho pequerrucho, ele perdeu o vovô  no final de 2020. Chorou pela calçada da minha casa. Abri o portão, abracei- o bem forte e disse:

“Seu vovô morreu, mas estará sempre vivo aqui oh, dentro do seu coração."

Vi muitas meninas na  calçada da casa do David. Por  vários dias. Vieram para se despedir do avô. Fui até lá. Conversamos sobre sonhos, sobre o adolescer. Tiramos uma foto com o sol aberto, a luz estava linda. Divulguei a foto e contei sobre minha personagem da vida real.  Mas cadê o livro? Chegou dia 2 de maio. 4 de maio, lançamento virtual com o editor. Via Youtube.

O lançamento presencial foi dia 10. Com filho, marido, muitas professoras e muitos professores, muitas amigas do meu filho, me prestigiaram comprando o exemplar. 

Um dia antes, eu fui vacinada com a quarta dose da vacina. Ainda estou vendedora.

Pelo status do Watsapp, pelo Twitter, pelo story do Instagram. Dos 129 livros, 1 é meu. 128 livros. Restam 38. Calma, gente. Eu espalhei livros.

Nas bibliotecas de rua, na biblioteca da fundação cultural do bairro onde eu moro, na biblioteca municipal, presenteei quem não pode comprar, fiz parcerias, sou a autora que pariu o terceiro livro. Cuido dele. Porque para ficar vivo na memória é precioso muito cuidado.

O mais bacana é receber fotos dos leitores com o livro e suas leituras sobre minhas crônicas.

E assim é Era Sábado. Com jeito de gentes. 

Por enquanto, preparando o quarto livro.

“De novo com a coluna ereta, Juntar os cacos, ir à luta

Manter o rumo e a cadência

“Esconjurar a ignorância, que tal”? (Chico Buarque de Holanda e Hamilton de Holanda)

 


domingo, 11 de junho de 2023

SOBRE UMA VOLTA AO PASSADO >> Sandra Modesto

 











Sobre uma volta ao passado.

No final dos anos setenta, minha mãe ficou preocupada e, conversando com uma amiga que vira e mexe estava lá em casa, confessou:

“Não sei o que eu faço com a Sandra, quando ela casar. Ela não sabe nada de dona de casa. Não sabe cozinha. E nem quer aprender. Fico preocupada.”

O que minha mãe queria ouvir era uma concordância e uma ajuda. Mas...

“Jacinta, sua filha é das letras”. Você ainda não entendeu?

Um sol ameno naquele mês de junho. Naquela tarde as duas amigas tomavam chá de canela e comiam biscoito frito de polvilho. O centro da mesa forrada com toalha xadrez, às xícaras esmaltadas, uma moça de 17 anos com mania de ouvir conversa de adulto às escondidas, ligou o rádio, pegou um caderno e escreveu a primeira crônica. Sem saber de gênero literário, sabia apenas que a conversa entre a mãe e dona Luísa, gerou vários pensamentos.

Nos anos oitenta, a filha da dona Jacinta escolheu o curso de Letras.

Pois então...

Ao ver a filha estudando a mãe confessou:

“Filha estuda mesmo. Para ter uma profissão e não depender de dinheiro de marido.”

A vida tem lá seus encantos.  Nesta tarde fria, leio um livro, corro até a cozinha e tomo café forte, com pão de queijo, um bolo de fubá. Quem preparou o café foi meu marido, mãe. Ando muito ocupada. Porque estou preparando o meu novo livro.


domingo, 12 de fevereiro de 2023

SINTONIA >> Sandra Modesto

 SINTONIA

De vez em quando, enquanto meu marido prepara o almoço,
O cheiro do arroz afogado perfumando minha sala, o lugar onde eu pensava:
" Minha crônica!"
Corri à cozinha e, numa caixa de som enorme tocava sintonia. ( Moraes Moreira)
Sim, temos vinil, CD, vitrola e caixa de som amplificada.
A música corria alta. Minha vontade também.
Agarrei meu marido e a gente dançou agarradinhos.
Podia ser uma marchinha de carnaval, né?
Mas abraçar colando o corpo, num roçar pela nuca, cheiro de pele cruzando com alho e cebola, beijo pra arrepiar os 32 anos juntos numa história. Nenhum casamento é perfeito. Mas música, beijo gostoso e um eu te amo nas entrelinhas
...
Não esperem o amor de vocês tomarem a iniciativa.
Agarrem o amor de vocês.
Se possível, ao som de sintonia.
" Que é nesse vai e vem
Nesse vai e vem
Que a gente se dá bem
Que a gente se atrapalha"


quinta-feira, 10 de novembro de 2022

PAI, ESTRAGUEI SUA BANDEIRA >> Sandra Modesto


Podia ter ficado calado, contado e mostrado só pra mãe ou revelar depois, em outro momento, mas, chegou da manifestação, deu de cara com o pai lanchando, todo tranquilo com a mãe, e foi logo dizendo:

- Pai estraguei sua bandeira.

- Ah, não, Gustavo, você não fez isso.

- Fiz pai, mas, foi sem querer, eu colei uma frase com aquela cola forte, pensei que não fosse "tão forte"!

- É depois sai. Com jeitinho pra não rasgar o tecido, calma, senta aí filho, conta:

- Como foi a manifestação?

- A minha bandeira oficial, eu nem acredito, não tenta acobertar o erro dele não, Júlia, ele agiu errado!

- É só mudou a frase, depois se não sair a gente compra outra bandeira, pra tudo se dá um jeito.

- Vocês acham tudo fácil, fácil, dinheiro, então!

- Dá pra brigar depois e ouvir o que o Gustavo tem pra contar sobre a primeira manifestação cidadã, política, de jovem engajado dele, por favor?

Luis se rendeu.

- Tá bom, filho, conta, como é que foi lá? Muita gente?

- Nossa! Muita gente, pai. Organização boa, as reivindicações bem elaboradas, pautas escritas e entregues para o representante do prefeito, pai, ele mandou representante, nem teve coragem de dialogar com a gente pai, é, mas, ele vai ter que levar a sério os nossos pedidos pai, da UFU, da UEMG, da Saúde, o povo tá muito insatisfeito, o atendimento, e os pagamentos dos contratados que não são pagos tem três meses, muita coisa errada, precisando melhorar, pai.

Luis e Júlia se olharam com alegria e orgulho, uma mistura de sentimentos.

Então aquele bebezinho de ontem, já estava virando gente, gente que luta que busca seus direitos e que não abandona o barco.

 "Meu garotão"! Pensou Luis.

Júlia embargou uma voz silenciosa:

“O filho que ensinei a ler, agora, aprendendo lições de Democracia”.

Mais tarde, Gustavo percebeu a porta aberta no quarto dos pais:

- Mãe, eu achei na internet um jeito de tirar cola de tecido, consegui tirar a frase da bandeira, mas rasgou um pouquinho o tecido.

Sorrindo por dentro a mãe disse:

-Ah, tá bom, nem vai dar para notar, filho. Esquece a bandeira, o que você fez hoje, foi muito mais brasileiro.

 

(Baseada em fatos reais e dedicada à turma que participou da manifestação pacífica em Ituiutaba em 2014)

domingo, 6 de novembro de 2022

Água nova brotando e a gente se amando sem parar


 










Depois do dia 30 de outubro, choveu por aqui. O tempo seco que retorcia galhos das árvores frutíferas numa primavera, não deteve nossos sonhos.

Por conta de tudo isso a bola rola para o segundo tempo, e, houve prorrogação.

Sempre aos domingos. Sempre com a esperança, na luta, na pesquisa Datavizinho.

Não existe facilidade. Mas imaginar um sol, uma força pela volta da Democracia, ah, como eu esperei por ela. Foram noites de insônia, manhãs sonolentas e notícias tristes, se eu contar que eu voto no Lula desde 1989, não é ilusão passageira. Eu estou falando sério. Mas estamos em 2022 e a crônica tem que continuar...

Moro numa casa há 13 anos. Vi crescer na família ao lado, duas crianças. Ana e o irmão. À medida que foram crescendo eu me sentia a avó que ainda não sou. Minha pesquisa no primeiro turno foi ao modo “O que será que será?”.

_ E aí, galera como está os votos por aí?

_ Na nossa família tudo é Lula.

Ao ouvir tanta doçura meu marca- passo fez baticum dentro do peito.

Há uma semana por essas horas eu já tinha votado. Preferi não acompanhar a apuração pelo Twitter.

Foi pela TV, bem acompanhada por quem esteve comigo: Marido e filho.

A gente preferiu o amor, a gente se abraçou, a gente gritou: “É Lula Porra”!

Desde então o meu café é forte com é forte o fole da sanfona, as cordas do violão, o toque do pandeiro, a fé na vida e muitos petiscos com queijo ou o que mais cada um quiser comprar. Porque vai!


domingo, 24 de julho de 2022

CONSTRUÇÃO >> Sandra Modesto

 De tarde o barulho se aquieta. Depois das cinco e meia, que é quando a empreitada entoa a canção da despedida.

Amanhã começa tudo de novo, mas pode ser com outros acordes. Porque o som da britadeira, dos operários passando a pá de cal com força pelo patamar. Raspando as mãos como se fossem quadros de arte, respingando tintas pela janela do meu quarto, zonzo e inocente. Eu sentei mirando naquele espetáculo bêbado os cacos de telha voando na minha cama.   

Quisera eu soubesse quanto tempo duraria a eternidade.

Nessa garupa desse veículo chamado vida.

Antes dessa história, antes desses dias. Mas deixa eu contar o início...

Moramos numa casa há treze anos. Uma pré-adolescência afinal, envolta em planos de marcar as linhas do coração. Como se a morada fosse o corpo da gente. Que fala, ouve, canta, lê e silencia.

Barulheira agitando meu cérebro, escuridão em três quartos e banheiros. Luzes acesas por que o sol fugiu, esmagando o brilho devorado em quase duas estações.

A gente teve uma conversa e a possibilidade de procurar outro canto pra viver entrou no jogo. Mas ainda tinha sol no quintal imenso, o Chico Buarque Modesto brilhava e se encantava. No jardim, também.

Foi quando afinamos a voz em um último som decisivo: “Vamos ficar por enquanto”.

A paixão pela casa. Como se fosse única.

E isso me possibilitou a ideia de conversar com os pedreiros. São eles que constroem tijolo por tijolo num desenho mágico.

 

domingo, 26 de junho de 2022

A VENDEDORA >> Sandra Modesto

 

Tudo começou em fevereiro quando eu anunciei pelas redes sociais: “Em breve"

Depois: "Lançamento em abril"

E o alvoroço se fez. Qual o produto que eu ia lançar? Eu me segurei no limite da ansiedade.

Recebi o PDF do livro para revisão, a foto da capa do livro, o miolo do livro. Tudo era livro. Tudo. Assim como a vida, que às vezes, nos leva  a pedir socorro

Bom, o "Era Sábado" é um livro de crônicas. Como divulgar o livro sem ele nas mãos? Eis minhas ideias...

A epígrafe é o trecho da letra de João e Maria de Chico Buarque e Sivuca. Eu postei uma imagem da música explicando que a primeira crônica do livro tinha o título da música.  

O David, da crônica “A Casa de Davi", é o meu vizinho pequerrucho, ele perdeu o vovô  no final de 2020. Chorou pela calçada da minha casa. Abri o portão, abracei- o bem forte e disse:

“Seu vovô morreu, mas estará sempre vivo aqui oh, dentro do seu coração."

Vi muitas meninas na  calçada da casa do David. Por  vários dias. Vieram para se despedir do avô. Fui até lá. Conversamos sobre sonhos, sobre o adolescer. Tiramos uma foto com o sol aberto, a luz estava linda. Divulguei a foto e contei sobre minha personagem da vida real.  Mas cadê o livro? Chegou dia 2 de maio. 4 de maio, lançamento virtual com o editor. Via Youtube.

O lançamento presencial foi dia 10. Com filho, marido, muitas professoras e muitos professores, muitas amigas do meu filho, me prestigiaram comprando o exemplar. 

Um dia antes, eu fui vacinada com a quarta dose da vacina. Ainda estou vendedora. Pelo status do Watsapp, pelo Twitter, pelo story do Instagram. Dos 129 livros, 1 é meu. 128 livros. Restam 38. Calma, gente. Eu espalhei livros.

Nas bibliotecas de rua, na biblioteca da fundação cultural do bairro onde eu moro, na biblioteca municipal, presenteei quem não pode comprar, fiz parcerias, sou a autora que pariu o terceiro livro. Cuido dele. Porque um bebê precisa de muito cuidado.

O mais bacana é receber fotos dos leitores com o livro e suas leituras sobre minhas crônicas.

E assim é Era Sábado. Com jeito de gentes. 

Por enquanto, preparando o segundo lançamento presencial. Que tal?

“De novo com a coluna ereta

Juntar os cacos, ir à luta

Manter o rumo e a cadência

“Esconjurar a ignorância, que tal”? (Chico Buarque de Holanda e Hamilton de Holanda)

 

A PROSA E O POEMA >> Sandra Modesto

 

O que é prosa? O caderno caiu no chão da cozinha. Ela teve preguiça diante da cena por tanto amor. Que agora, esfria e acende. Rima e se faz num sábado.

Pegou o ônibus no espaço de sempre.

Acenou pra o motorista. Há trinta anos o percurso contínuo, olhos e ouvidos atentos às conversas. Renderiam crônicas. Encontros. 

Queria uma prosa boa, uma história quente, não sabia na verdade, se queria uma trepada ou sexo com amor. Ah, naqueles tempos em que nada impedia uma paixão que fervia por todos os poros, no carro, no canto do amanhecer, a gente tinha, 20, 30 anos. Aos sessenta anos... Bem, depois disso, no colchão macio é uma boa pedida.

Prosa é a conversa de todos os dias. É o abraço no cotidiano. Um livro de crônicas requer um olhar apurado, ao mesmo tempo, é um gênero merecedor de prêmios. Por isso, eu adquiri vários títulos clássicos e contemporâneos escritos por mulheres.

O cantor Gilberto Gil disse um dia desses: “É preciso acabar com essa história de achar que a cultura é uma coisa extraordinária. Cultura é ordinária!”.

Escrevendo este texto ouvindo Drão perguntei:

“Cadê aquele seu poema?” (Sim, foi uma mensagem no Watsapp.).

Qual poema? Tem mais de um? Tenho.

Onde estão?

Não sei.

Eu me lembro de uma pasta que eu fiz no computador, pra ele. Procurei.

 “Entre minhas mãos tu escapas como se não existisse amor
Sob a retina de meus olhos vejo-te dobrar a esquina
Não sei se voltarás de um deserto ou de um oceano.
Se ainda frágil ou mais madura.
Ao som dos meus quase risos quase lágrimas
Ouço teus passos todas às vezes mais silenciosos
Não sei se te ouvirei, meio a melodia dos teus beijos
tua boca a dizer "Te amo".
Amar é assim um desassossego”.

Lahus

Pra quem ele escreveu, eu não sei. Mas é foda!

 

quarta-feira, 2 de março de 2022

NATUREZA >> Sandra Modesto


 







Esparramava- se de vez em quando. Nascia em galhos.Verdes. Em folhas que curavam dores, em infusão, acalmavam peles, viravam chás. Curavam feridas e fechavam lágrimas das mães.

Quando secos, retorciam quebrados e olhavam cheios de medos o fogo que matava- os.

Carregava- se de frutas. Frutos das famílias com quintais. Sem veneno, com afeto. Esparramava-se de vez em quando. Os braços acarinhando o filho, fortalecendo a filha. Nesse esparramar, virava jardim suspenso. Pernas pelas paredes, muros em fotografias de cidade em cidade.  De tanto espichar píncaros da natureza, refestelava a língua para brotar por várias estações. Espia pela janela um par de roupas em farrapos, lembra-se da vizinha transformadora de peças velhas fazendo sorrir as moças, que a partir daquela hora, sentiam – se bonitas, calmas como ramalhetes.

No meio do dia, peço ajuda ao sol. E o ritmo de um farfalhar me faz árvore à busca da delicadeza perdida.

Porque desaprendo, ignoro pedras rolantes, toco a lentidão e sinto pela primeira vez, sou efêmera. Espicho num chão da sala meus troncos à mesa rústica, que alguns dizem ser um banco, eu não sento, para mim, é mesa. Pequena, muito rica na arte com os pés de raízes.

Espio a cama de uma mulher, ela agradece minha companhia. E me abraça esguia, parece forte como os galhos ainda não esmagados.  A mulher de repente, venha a ser eu.

Esparramo- me de vez em quando. E de tempo em tempo, volto a florir.

 A mesinha centenária ocupa a história, vasta de personagens, transforma – se em peça principal e se ocupa de livros. Mais uma vez, espicho meus troncos já meio doídos, mas doidos para viver um pouco mais.  Esparramo meus pés nos vãos abertos da mesinha. É um exercício memorial. Agarro páginas, uma nuvem insiste um anoitecer final. Também sei gargalhar. Minha risada é tão alta que transborda os mais tímidos silêncios. Invento uma bailarina, e livre, sem música, sigo a dança do vento lá fora.


Imagem: Pixabay


sábado, 5 de fevereiro de 2022

RETROSPECTIVA >> Sandra Modesto

 Meu pai me chamou e disse que estava com câncer. Eu tinha que contribuir com o orçamento familiar. Nossa vida sofreria mudanças daquela hora em diante.

Fiquei meio assustada, mas, lá fui eu, ser “alguém” na vida. O trabalho era em uma empresa de telefonia.

Entrevista, uma prova de português e fui admitida.

Sempre gostei de sapatos. Usei o primeiro par de sapatos de salto alto aos 13 anos. Levei um tombo na Rua 22.

 Com o meu primeiro salário, adivinha o que comprei? Um par de sapatos de grife.

O tempo avançou um pouquinho e minha vida como professora começou aos vinte e um anos. Primeira gravidez, escola de periferia, crianças em fase de alfabetização.

A escola era muito distante da minha casa. Não havia ônibus e eu ia e voltava a pé, debaixo de um sol escaldante, e a barriga crescendo, crescendo...

Com a gravidez no final, a diretora me trocou do turno vespertino para o noturno.

 Mas o contrato na escola acabou. Voltei dois anos depois. Trabalhando com ensino fundamental dois e ensino médio.

Hoje consigo lembrar-me vários momentos. Um deles me entristeceu muito. Aconteceu numa cela de uma penitenciária quando exercia o magistério simultaneamente com a profissão de repórter de uma TV local. Fui cobrir uma reportagem na cadeia:

– Professora, professora, você lembra de mim?

– É ela! Ficou famosa hein, professora?

Cheguei mais perto. Recordei- me que tinham sido meus alunos. Senti uma mistura de revolta, desespero, impotência.

“Então eu fui professora deles e eles vieram parar aqui? Eu não servi pra nada”...

Não, não era isso. O problema era a desvalorização da Educação. Aqueles alunos na cadeia eram vitimas da sociedade desigual, falta de estrutura familiar. Uma série de questões graves.

E Há três anos, tudo piorou. Pátria amada Brasil”. Inferno!

 

Outubro de 2002...

Eu trabalhava em uma escola da periferia com minhas quatro turmas dos sétimos e oitavos anos, quando idealizei um projeto literário envolvendo o centenário de Carlos Drummond de Andrade. Sem recursos tecnológicos e falta de livros literários na biblioteca, reuni a turma e contei quem tinha sido Drummond, recitei trechos de poesias. Para fechar a parte principal, ensaiamos um musical baseado no poema, “José”.

Tive a ideia de sugerir a pauta ao canal de TV. Repórter, cinegrafista, microfones, entrevistas. A matéria veiculou em rede regional, estadual, em um canal fechado de grande audiência. Momentos de aplausos e sorrisos da equipe pedagógica. Alunos com olhos brilhando.

Até hoje, reencontro muitos que se recordam de mim, a gente conversa, e eu fico sabendo que terminaram os estudos, alguns fizeram cursos universitários de música, teatro, pedagogia ou cursos técnicos. Estão aí, buscando dignidade.

“AOS ESFARRAPADOS DO MUNDO E AOS QUE NELES SE DESCOBREM E, ASSIM DESCOBRINDO- SE, COM ELES SOFREM, MAS, SOBRETUDO, COM ELES LUTAM.” Paulo Freire em PEDAGOGIA DO OPRIMIDO.

 

 

 

domingo, 30 de janeiro de 2022

PETISCOS DE DOMINGO >> COM AÇÚCAR- COM AFETO- COM NARA


Acordo sempre depois das dez da manhã. Só consigo tomar café sem açúcar, forte, quente, vivo. Durante toda a minha infância e adolescência minha mãe nos proibiu de tomar café. Era chá. Doce, de canela, com afeto. A primeira vez que senti gosto de café, eu tinha 18 anos, quando entrei para o mercado de trabalho. Numa empresa que servia café, experimentei e pronto. Tomava café na empresa, não tomava café em casa. A explicação da minha mãe era a de que prejudicava o sono. Dona Jacinta e suas razões.

Nesse texto nostálgico, meio vida aos 61, é apenas uma forma de começar. Na sexta-feira à tarde, sob um calor de 34 graus, deitada no sofá, assisti – O CANTO LIVRE DE NARA LEÃO. Tenho por mim, que de um jeito doce e ao mesmo tempo forte, Nara revolucionou a música brasileira. Musa da bossa-nova rompeu preconceitos confrontou a ditadura militar. Sem alterar o tom de voz. O que permitiu a ela, abrir espaços para as mulheres. Mas o documentário trouxe á discussão rasa e imprecisa, a música, “Com açúcar com afeto”. Eram os anos setenta, Nara pediu que Chico Buarque compusesse uma música sofredora, dando vazão ao amor de um casal típico onde o homem era o macho livre. No documentário, Chico explica que o pedido foi de uma música sofredora. Ele fez. Ela cantou, ele também. As feministas reagiram à letra, o que é perfeitamente compreensível. O importante é a desconstrução do machismo. Apesar do lirismo na música, a letra é dos anos setenta.

Não havia movimento feminista.

Brasil 2022, discutindo o Brasil em 1976. Nara cantou “Os Saltimbancos”- (História de uma gata) cantou Dueto, cantou muito Chico Buarque. Era a favor da pílula, do divórcio, e parou de cantar quando foi mãe, para se dedicar aos filhos.

Deixemos a interpretação de com açúcar com afeto, no coração. Chico Buarque apoiou a causa feminista, o que o torna mais lindo. Não vai cantar mais a música, acredita que se Nara estivesse viva, também não cantaria. Remover a música da história é impossível, estará no youtube e nas plataformas digitais. Fernanda Takai já afirmou que continuará a cantar a música nos seus shows.

O CANTO LIVRE DE NARA LEÃO está em cartaz no Globo Play.

Sandra Modesto 


domingo, 26 de dezembro de 2021

ROSA EM EDIÇÃO >> Sandra Modesto

 Rosa estava fugindo de notícias ruins.  Acordou meio desanimada.  E num cansaço estranho voltou a dormir. Sonhou... Uma notícia boa num jornal.

Arrumou um tempinho e se espalhou.

Preferiu as rosas. Elas não falam, mas há o desmedido amor manso dos girassóis. Rosa não preteriu – se.

Gritou. Havia silenciado por tantas vezes. 

Quis inventar. Qualquer linha, qualquer embaraço alguns escritos. Lá fora, o mundo grita por mim? O despertar ofegante e o texto surgiram sem fuga.  

Os minutos estão fragmentados. Pessoas morando nas ruas. Crianças trabalhando, governo sem planos de vacinação infantil.  O que é isso Brasil!

Difícil escrever senta na poltrona, desiste. Insiste. Esquece o teclado. Usa bloquinhos de papel.

Na imaginação fértil de um útero poético, Rosa imagina- se uma fotógrafa registrando as ruas por onde passa. As luas. O raio tão forte e o namoro de duas mulheres em praça pública.  Cenas de cinema. Porque na vida real, há tabus. Rosa adormece.

Ao acordar enfrenta o noticiário. “Um nó no peito em dó maior” (Verso do texto, “A dor da gente” escrito por mim).

Rosa faz xixi e corre do espelho.  É ele que escancara quando a moça que passa o café, vê no reflexo de dentro, uma vontade imensa de mudar a história. Um livro marcado na penúltima página. Escrito em letras garrafais, um espetáculo permeado por liberdades.   Num sábado cretino, uma solidão que avança o tempo. Um caderno, uma prateleira empoeirada, uma alergia pequena.

Apenas a certeza seria a hora da morte do ultimo ato ou capítulo, ou algo capaz de atormentar o leitor, o espectador, o paraíso proibido ficaria explícito numa vulgar edição.

Nada é inédito. Restam apenas os dentes passados no fio dental. Uma câmera imaginária atravessa uma possível filosofia de botequim. Rosa sabia das dores de uma mulher. Escreveu e contou tudo antes do morrer dos dias. Tudo é brisa. É merda. Aplausos ou nada.


 

domingo, 31 de outubro de 2021

Naquela mesa >> Sandra Modesto

 Daqui a dois meses, no dia 31 de dezembro do ano estarrecido, corroído no vazio de muitas famílias, como cantar em coro, adeus ano velho feliz ano novo?

O ano velho levou para sempre, os que  não estarão na última festa.

Dá pra dizer feliz ano novo olhando a mesa incompleta? Cadeiras vazias, olhares disfarçados tentando os risos fracos. Porque a vovó não está ali, o avô, as tias, os tios, a amiga, o amigo.

A professora que contou histórias, as conversas marcantes, agora distantes demais.

Elas e eles viraram covas. Nas seiscentas e sete mil vidas perdidas, seria espanto, reforçar que quatrocentos mil pessoas poderiam estar vivas? Por isso meu bem, no último dia de dois mil e vinte um, recolha sua dor, não ignore a miséria do Brasil, saboreie devagar ao comer pedaços de lombo assado, lembre- se das pessoas comendo osso, catando comida no lixo, e se puder, assuma sua estranha paixão pela vida.

Naquela mesa incompleta. O forro branco escorrendo pelos cantos.

O feliz ano novo será meio assim, implacável na canção destoada. Feliz ano novo?

Não. Cada um vai chorar em silêncio

E recolher as sobras das saudades.

 ( Crônica publicada hoje, no site: Crônica do dia)

RUA DOCE MISTÉRIO >> Sandra Modesto

  RUA DOCE MISTÉRIO Conheci Edgar numa noite estapafúrdia Ele sequer imaginava que eu, aos dezessete anos, fazia licenças poéticas Vár...