Não amaremos
Se eu disser que vi você
sem dizer o poema
Eu escrevi falando de nós. A chuva no meio da noite, o sorriso no ponteio da gente
Se eu inventasse um amor de abraçar a nuvem no canto do sol
Nossa dança embriagada, o beijo de estalo, o povo assistindo, o brilho do nosso olhar e dos nossos sorrisos.
Se eu nunca mais te visse
Se eu escorregasse nesse lamaçal da vida
Se eu mudasse de ideia
Envolvesse nossas pernas na quentura da noite calma num verão imenso.
Eu olharia no grito da manhã, os galhos balançando, a terra molhada com cheiro de vida.
E os meus versos
Pode acontecer um poema com letras grandes num cartaz: eu te amo, eu te amo, eu te amo, & entornasse a ternura na toalha branca.
Se eu te dissesse adeus. Um adeus pequeno. Interrompendo a inquietude.
È este o poema. Um dilema sem fim.
É a vida cuspindo exaustão. A preguiça, o suspiro, o bocejo.
O resquício de alguma estrofe, o fio de uma história mal escrita, sei lá, é o tempo. E isso é o que resta.
Se eu disser, que é tudo invenção desse momento
Essa saudade desvairada. O nosso retrato bonito na porta da geladeira.
Talvez, seja assim, o jeito menos sofrível de não amar.
Se mudarmos de ideia, amaremos o vento, onde tudo começa.

