quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Não amaremos >> Sandra Modesto

 Não amaremos

Se eu disser que vi você

 sem dizer o poema

Eu escrevi falando de nós. A chuva no meio da noite, o sorriso no ponteio da gente

Se eu inventasse um amor de abraçar a nuvem no canto do sol

Nossa dança embriagada, o beijo de estalo, o povo assistindo, o brilho do nosso olhar e dos nossos sorrisos. 

Se eu nunca mais te visse

Se eu escorregasse nesse lamaçal da vida

 Se eu mudasse de ideia

 Envolvesse nossas pernas na quentura da noite calma num verão imenso.

Eu olharia no grito da manhã, os galhos balançando, a terra molhada com cheiro de vida. 

E os meus versos

Pode acontecer um poema com letras grandes num cartaz: eu te amo, eu te amo, eu te amo, & entornasse a ternura na toalha branca.

Se eu te dissesse adeus. Um adeus pequeno. Interrompendo a inquietude.

È este o poema. Um dilema sem fim.

É a vida cuspindo exaustão. A preguiça, o suspiro, o bocejo.

O resquício de alguma estrofe, o fio de uma história mal escrita, sei lá, é o tempo. E isso é o que resta.

Se eu disser, que é tudo invenção desse momento

Essa saudade desvairada. O nosso retrato bonito na porta da geladeira.

Talvez, seja assim, o jeito menos sofrível de não amar.

Se mudarmos de ideia, amaremos o vento, onde tudo começa.

 

domingo, 19 de outubro de 2025

Revista O Bule: Certo dia...

Revista O Bule: Certo dia...: Dedicado aos colegas escritores brasileiros que, apesar dos pesares, fazem a literatura brasileira contemporânea.   Por Krishnamurti Góes...

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

domingo, 18 de maio de 2025

Por enquanto, outono

 


Os sóis dos domingos dessa estação me levam a vaguear. Visto minha calça legging, uma blusa confortável, nos pés, tênis e meias para o meu passeio pelas ruas próximas.

 Resolvo caminhar pela praça. Subo a rampa, desço pela escada, na verdade, uma atividade física gostosa. Olho a decoração grafitada, admiro a arte exposta. Quem passa, limpa a câmera do celular e registra a arte de rua. É o bairro Natal. Bairro de periferia. 

E assim, sigo meu caminho com o sol tímido, meus passos fortes e a suavidade da vida que eu invento. Talvez recriar seja o verbo mais certeiro na minha caminhada. Passo perto de uma turma de garotos jogando bola. Observo. Tinha um garoto sem camisa e com uma calça de malha surrada. Alto, magro. Bonito, a pele brilhava diante do sol. Tinha um baixinho com camiseta e bermuda.

E mais uns três, mas o diálogo, a conversa entre eles prendeu minha atenção.

 “E o Vinicius, hein”?

 “Pois é”.

­_ Ou, o Vinícius era louco. Pô, que saudades daquele tempo!

_ Bons tempos! Né? Bons tempos. Tempos que não voltam mais.

Fiquei intrigada. Os meninos, pela aparência, tinham de 13 a 16 anos.

E já tinham saudades do passado?

O que será que aconteceu com Vinicius? Mudou de cidade? Morreu? Foi preso?

Sim, foi tão importante que está preso nas memórias da turma. E marcou um golaço no meu domingo de outono.

É hora do café forte, sem açúcar. Mas com afeto.

Não amaremos >> Sandra Modesto

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