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domingo, 12 de julho de 2026

RUA DOCE MISTÉRIO >> Sandra Modesto

 RUA DOCE MISTÉRIO

Conheci Edgar numa noite estapafúrdia

Ele sequer imaginava que eu, aos dezessete anos, fazia licenças poéticas

Várias, muitas vezes sem a menor intenção de usá-las

Mas naquele momento pedi ajuda a qualquer poeta.

Uma confusão boa

Não muito boa

Mas... Boa, tombava todo o meu corpo.

Edgar me pegou pelas mãos. Depois olhou um trecho do caminho a ser percorrido.

E num abraço caudaloso; o beijo com gosto de café sem açucar.

   Acaso é este encontro

Entre o tempo e o espaço

Mais do que um sonho que eu conto

Ou mais um poema que eu faço?

Se Leminski fosse vivo, talvez dissesse que, sim. 

A rua esdrúxula, o acaso inexplicável entre o beijo, o abraço e a vida.

Nada é tão importante quanto tudo. Porque dizer “Tudo bem” é uma safadeza.

Voltemos ao Edgar. O moço garboso e bem disposto a continuar pelo caminho.

Minhas pernas davam sinais de cansaço. Ele não se importava. A lua apontando a escuridão

A cidade crua de amor

E eu? Gritei. Mas o amor não veio.

Virei notícia de jornal.

Mais uma. Deixei as palavras bonitas, troquei-as por saudades.

 

domingo, 11 de junho de 2023

SOBRE UMA VOLTA AO PASSADO >> Sandra Modesto

 











Sobre uma volta ao passado.

No final dos anos setenta, minha mãe ficou preocupada e, conversando com uma amiga que vira e mexe estava lá em casa, confessou:

“Não sei o que eu faço com a Sandra, quando ela casar. Ela não sabe nada de dona de casa. Não sabe cozinha. E nem quer aprender. Fico preocupada.”

O que minha mãe queria ouvir era uma concordância e uma ajuda. Mas...

“Jacinta, sua filha é das letras”. Você ainda não entendeu?

Um sol ameno naquele mês de junho. Naquela tarde as duas amigas tomavam chá de canela e comiam biscoito frito de polvilho. O centro da mesa forrada com toalha xadrez, às xícaras esmaltadas, uma moça de 17 anos com mania de ouvir conversa de adulto às escondidas, ligou o rádio, pegou um caderno e escreveu a primeira crônica. Sem saber de gênero literário, sabia apenas que a conversa entre a mãe e dona Luísa, gerou vários pensamentos.

Nos anos oitenta, a filha da dona Jacinta escolheu o curso de Letras.

Pois então...

Ao ver a filha estudando a mãe confessou:

“Filha estuda mesmo. Para ter uma profissão e não depender de dinheiro de marido.”

A vida tem lá seus encantos.  Nesta tarde fria, leio um livro, corro até a cozinha e tomo café forte, com pão de queijo, um bolo de fubá. Quem preparou o café foi meu marido, mãe. Ando muito ocupada. Porque estou preparando o meu novo livro.


domingo, 30 de janeiro de 2022

PETISCOS DE DOMINGO >> COM AÇÚCAR- COM AFETO- COM NARA


Acordo sempre depois das dez da manhã. Só consigo tomar café sem açúcar, forte, quente, vivo. Durante toda a minha infância e adolescência minha mãe nos proibiu de tomar café. Era chá. Doce, de canela, com afeto. A primeira vez que senti gosto de café, eu tinha 18 anos, quando entrei para o mercado de trabalho. Numa empresa que servia café, experimentei e pronto. Tomava café na empresa, não tomava café em casa. A explicação da minha mãe era a de que prejudicava o sono. Dona Jacinta e suas razões.

Nesse texto nostálgico, meio vida aos 61, é apenas uma forma de começar. Na sexta-feira à tarde, sob um calor de 34 graus, deitada no sofá, assisti – O CANTO LIVRE DE NARA LEÃO. Tenho por mim, que de um jeito doce e ao mesmo tempo forte, Nara revolucionou a música brasileira. Musa da bossa-nova rompeu preconceitos confrontou a ditadura militar. Sem alterar o tom de voz. O que permitiu a ela, abrir espaços para as mulheres. Mas o documentário trouxe á discussão rasa e imprecisa, a música, “Com açúcar com afeto”. Eram os anos setenta, Nara pediu que Chico Buarque compusesse uma música sofredora, dando vazão ao amor de um casal típico onde o homem era o macho livre. No documentário, Chico explica que o pedido foi de uma música sofredora. Ele fez. Ela cantou, ele também. As feministas reagiram à letra, o que é perfeitamente compreensível. O importante é a desconstrução do machismo. Apesar do lirismo na música, a letra é dos anos setenta.

Não havia movimento feminista.

Brasil 2022, discutindo o Brasil em 1976. Nara cantou “Os Saltimbancos”- (História de uma gata) cantou Dueto, cantou muito Chico Buarque. Era a favor da pílula, do divórcio, e parou de cantar quando foi mãe, para se dedicar aos filhos.

Deixemos a interpretação de com açúcar com afeto, no coração. Chico Buarque apoiou a causa feminista, o que o torna mais lindo. Não vai cantar mais a música, acredita que se Nara estivesse viva, também não cantaria. Remover a música da história é impossível, estará no youtube e nas plataformas digitais. Fernanda Takai já afirmou que continuará a cantar a música nos seus shows.

O CANTO LIVRE DE NARA LEÃO está em cartaz no Globo Play.

Sandra Modesto 


domingo, 26 de dezembro de 2021

ROSA EM EDIÇÃO >> Sandra Modesto

 Rosa estava fugindo de notícias ruins.  Acordou meio desanimada.  E num cansaço estranho voltou a dormir. Sonhou... Uma notícia boa num jornal.

Arrumou um tempinho e se espalhou.

Preferiu as rosas. Elas não falam, mas há o desmedido amor manso dos girassóis. Rosa não preteriu – se.

Gritou. Havia silenciado por tantas vezes. 

Quis inventar. Qualquer linha, qualquer embaraço alguns escritos. Lá fora, o mundo grita por mim? O despertar ofegante e o texto surgiram sem fuga.  

Os minutos estão fragmentados. Pessoas morando nas ruas. Crianças trabalhando, governo sem planos de vacinação infantil.  O que é isso Brasil!

Difícil escrever senta na poltrona, desiste. Insiste. Esquece o teclado. Usa bloquinhos de papel.

Na imaginação fértil de um útero poético, Rosa imagina- se uma fotógrafa registrando as ruas por onde passa. As luas. O raio tão forte e o namoro de duas mulheres em praça pública.  Cenas de cinema. Porque na vida real, há tabus. Rosa adormece.

Ao acordar enfrenta o noticiário. “Um nó no peito em dó maior” (Verso do texto, “A dor da gente” escrito por mim).

Rosa faz xixi e corre do espelho.  É ele que escancara quando a moça que passa o café, vê no reflexo de dentro, uma vontade imensa de mudar a história. Um livro marcado na penúltima página. Escrito em letras garrafais, um espetáculo permeado por liberdades.   Num sábado cretino, uma solidão que avança o tempo. Um caderno, uma prateleira empoeirada, uma alergia pequena.

Apenas a certeza seria a hora da morte do ultimo ato ou capítulo, ou algo capaz de atormentar o leitor, o espectador, o paraíso proibido ficaria explícito numa vulgar edição.

Nada é inédito. Restam apenas os dentes passados no fio dental. Uma câmera imaginária atravessa uma possível filosofia de botequim. Rosa sabia das dores de uma mulher. Escreveu e contou tudo antes do morrer dos dias. Tudo é brisa. É merda. Aplausos ou nada.


 

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

SONHOS E PERDAS >> Sandra Modesto

O sol atravessou a janela e o cheiro do café exalava o amanhecer.

Vitória tinha dezessete anos e era o tempo em rascunho. A adolescente morava com o pai desde os quatro anos de idade. Antônio era pedreiro e educava a filha bordando o enigma do jeito que a vida o ensinava. Nunca escondeu debaixo do tapete a verdade sobre a separação.

Vitória e o pai moravam num barraco desde que a mãe optou em não terminar de criar a filha. Vilma foi embora com o novo amor. Preferiu assim.

Trabalhando de pedreiro, o dinheiro mensal apertava aqui e ali.

Na casa simples, Antônio e Vitória inventavam um castelo.

Numa quinta – feira algo puxou o costumeiro diálogo.

_ Que tristeza é essa no olhar? Eu te conheço...

- Nada. Deixa pra lá.

Sim. Tanta coisa que nem a garota consegue explicar.

À noite eles mal se viam. Um corre-corre daqueles. Vitória ia do trabalho para a escola e chegava tarde. Nunca sem tempo de ganhar um jantarzinho caprichado.

Antes de dormir, uma conversa rápida seguida de um beijo de boa noite...

_ Bom dia pai!

_ Bom dia. Que animação é essa?

_ Pai, se liga. Depois do trampo, escola e balada! Hoje é sexta – feira. Eu tomo cuidado pai. Vai ser na casa da Maria. Já pensamos em tudo. A casa da Maria é meio pequena, mas retirando uns móveis, dá pra gente dançar.

O pai seguiu para o trabalho. Meio preocupado. Havia algo que não dava liga no coração do pai de adolescente...

Colocando os tijolos na casa que estava construindo, sem perceber, Antônio voltou os pensamentos para a filha. Lembrou – se dos treze anos criando a filha. Sozinho com uma menina para dar conta de educar.

            _ E agora? Pensava o pai. O que Vitória sentia? Será que tinha acontecido um momento desses. Desses... É, será que a filha ainda era virgem?  Vitória não deveria ser diferente das outras meninas que tinham dezessete anos. Antônio esperou pela filha. Dormiu tomado pelo cansaço... Num canto de uma rua, Vitória foi silenciada por um desconhecido.  _ Vem gostosa. Vem! ... Na casa de Vitória, uma omelete esfriou. Ela chegou.  Chorou lavando o corpo e os sonhos perdidos.

 


terça-feira, 4 de abril de 2017

Haja poesia pra não morrer.

BILHETE ABERTO

Rafael recebeu após um rompimento amoroso:

"Olá, proponho um  segundo encontro.
Precisamos dele.
Para matar as saudades,
Para rever alguns pontos,
Quem sabe estreitar os laços?
Não aos embaraços.
Bem intencionada, quero apenas te contar: poemas. Poemas prosaicos;
Da primeira à última linha, não faço nada demais.
Apenas quero você. Lendo todos esses escritos, versos meus, versos seus, nossos versos de saída, versos de nossas vidas.
Antigos e novos versos, pedaços meus.
Agradeço, mando um abraço, encantos e desencantos distantes.
De agora em diante:
Perto dos olhos seus.
Ele correu para alcançá-la numa rua deserta. Renata era o nome dela."

Não sei o que houve depois...

Sandra Modesto.

RUA DOCE MISTÉRIO >> Sandra Modesto

  RUA DOCE MISTÉRIO Conheci Edgar numa noite estapafúrdia Ele sequer imaginava que eu, aos dezessete anos, fazia licenças poéticas Vár...