domingo, 12 de julho de 2026

RUA DOCE MISTÉRIO >> Sandra Modesto

 RUA DOCE MISTÉRIO

Conheci Edgar numa noite estapafúrdia

Ele sequer imaginava que eu, aos dezessete anos, fazia licenças poéticas

Várias, muitas vezes sem a menor intenção de usá-las

Mas naquele momento pedi ajuda a qualquer poeta.

Uma confusão boa

Não muito boa

Mas... Boa, tombava todo o meu corpo.

Edgar me pegou pelas mãos. Depois olhou um trecho do caminho a ser percorrido.

E num abraço caudaloso; o beijo com gosto de café sem açucar.

   Acaso é este encontro

Entre o tempo e o espaço

Mais do que um sonho que eu conto

Ou mais um poema que eu faço?

Se Leminski fosse vivo, talvez dissesse que, sim. 

A rua esdrúxula, o acaso inexplicável entre o beijo, o abraço e a vida.

Nada é tão importante quanto tudo. Porque dizer “Tudo bem” é uma safadeza.

Voltemos ao Edgar. O moço garboso e bem disposto a continuar pelo caminho.

Minhas pernas davam sinais de cansaço. Ele não se importava. A lua apontando a escuridão

A cidade crua de amor

E eu? Gritei. Mas o amor não veio.

Virei notícia de jornal.

Mais uma. Deixei as palavras bonitas, troquei-as por saudades.

 

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