Eu sempre gostei de teatro. Na minha adolescência eu escrevia monólogos e imaginava que era, sim, a melhor atriz nacional da década de setenta. No quintal da casa cheia de bananeiras, sol das quatro iluminado, palco verde natural. Era este, o cenário que eu tinha. O melhor de todos. A plateia mínima. E lá estava a dona da história.
Encenando para um publico com apenas quatro pessoas, minhas irmãs aplaudindo. Às vezes, pouco é muito.
E no susto, a vida correu.
Estamos em maio de 2026. Ontem, eu relembrei pro Gabriel, nossa conversa de março sobre minha ida ao teatro assistir “Rita Lee- Uma autobiografia” em Uberlândia.
O espetáculo foi lindo. Muito empolgada e emocionada comecei a contar pra ele.
Falei, falei, como se o mundo fosse acabar. Com olhar atento, ele arregalou os olhos cor de jabuticaba.
_ Quanto você pagou mãe?
_ Uai, paguei meia-entrada por causa da minha idade.
_ Foi caro.
_Mas, Gabriel.
Quantos pretos? Mãe, quantos pretos tinham no teatro?
Voltei o meu olhar para o público quando cheguei e quando saí. Inúmeros brancos.
A tarde se despedindo, meu café à espera desde o início da conversa. Percebi então que, mãe nem sempre ensina. Mãe aprende. Principalmente sobre questões raciais.
Parafraseando o cineasta ituiutabano, João Batista de Andrade:
“É preciso ampliar o acesso, ainda ridículo do povo brasileiro ao TEATRO”.
Do povo preto.
Eu e o Gabriel temos nossos momentos de conversas.
E, sobre o preço do teatro, na conversa de ontem, ele acrescentou:
_ O preço do cinema, também é caro, mãe.
Eu acrescentei:
Livros.
_ Não, livro tem os sebos, bibliotecas públicas, muitas opções.
Verdade. Tenho 350 exemplares na minha biblioteca física. Haja livros para um espaço ínfimo. Prometo não comprar mais livros. Mas é mentira.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
mensagem sobre a postagem com palavras simples, respeitosas e objetivas.