domingo, 31 de maio de 2026

QUANTOS PRETOS? >> Sandra Modesto











Eu sempre gostei de teatro. Na minha adolescência eu escrevia monólogos e imaginava que era, sim, a melhor atriz nacional da década de setenta. No quintal da casa cheia de bananeiras, sol das quatro iluminado, palco verde natural. Era este, o cenário que eu tinha. O melhor de todos. A plateia mínima. E lá estava a dona da história.  

Encenando para um publico com apenas quatro pessoas, minhas irmãs aplaudindo.  Às vezes, pouco é muito.

E no susto, a vida correu.

Estamos em maio de 2026. Ontem, eu relembrei pro Gabriel, nossa conversa de março sobre minha ida ao teatro assistir “Rita Lee- Uma autobiografia” em Uberlândia.

O espetáculo foi lindo. Muito empolgada e emocionada comecei a contar pra ele.

Falei, falei, como se o mundo fosse acabar. Com olhar atento, ele arregalou os olhos cor de jabuticaba.

_ Quanto você pagou mãe?  

_ Uai, paguei meia-entrada por causa da minha idade.

_ Foi caro.

_Mas, Gabriel.

Quantos pretos? Mãe, quantos pretos tinham no teatro?

Voltei o meu olhar para o público quando cheguei e quando saí. Inúmeros brancos.

  

A tarde se despedindo, meu café à espera desde o início da conversa. Percebi então que, mãe nem sempre ensina. Mãe aprende. Principalmente sobre questões raciais.

  Parafraseando o cineasta ituiutabano, João Batista de Andrade:

“É preciso ampliar o acesso, ainda ridículo do povo brasileiro ao TEATRO”.

Do povo preto.

Eu e o Gabriel temos nossos momentos de conversas.

E, sobre o preço do teatro, na conversa de ontem, ele acrescentou:

_ O preço do cinema, também é caro, mãe.

Eu acrescentei:

Livros.

_ Não, livro tem os sebos, bibliotecas públicas, muitas opções.

Verdade. Tenho 350 exemplares na minha biblioteca física. Haja livros para um espaço ínfimo. Prometo não comprar mais livros. Mas é mentira.

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