domingo, 12 de julho de 2026

RUA DOCE MISTÉRIO >> Sandra Modesto

 RUA DOCE MISTÉRIO

Conheci Edgar numa noite estapafúrdia

Ele sequer imaginava que eu, aos dezessete anos, fazia licenças poéticas

Várias, muitas vezes sem a menor intenção de usá-las

Mas naquele momento pedi ajuda a qualquer poeta.

Uma confusão boa

Não muito boa

Mas... Boa, tombava todo o meu corpo.

Edgar me pegou pelas mãos. Depois olhou um trecho do caminho a ser percorrido.

E num abraço caudaloso; o beijo com gosto de café sem açucar.

   Acaso é este encontro

Entre o tempo e o espaço

Mais do que um sonho que eu conto

Ou mais um poema que eu faço?

Se Leminski fosse vivo, talvez dissesse que, sim. 

A rua esdrúxula, o acaso inexplicável entre o beijo, o abraço e a vida.

Nada é tão importante quanto tudo. Porque dizer “Tudo bem” é uma safadeza.

Voltemos ao Edgar. O moço garboso e bem disposto a continuar pelo caminho.

Minhas pernas davam sinais de cansaço. Ele não se importava. A lua apontando a escuridão

A cidade crua de amor

E eu? Gritei. Mas o amor não veio.

Virei notícia de jornal.

Mais uma. Deixei as palavras bonitas, troquei-as por saudades.

 

domingo, 31 de maio de 2026

QUANTOS PRETOS? >> Sandra Modesto











Eu sempre gostei de teatro. Na minha adolescência eu escrevia monólogos e imaginava que era, sim, a melhor atriz nacional da década de setenta. No quintal da casa cheia de bananeiras, sol das quatro iluminado, palco verde natural. Era este, o cenário que eu tinha. O melhor de todos. A plateia mínima. E lá estava a dona da história.  

Encenando para um publico com apenas quatro pessoas, minhas irmãs aplaudindo.  Às vezes, pouco é muito.

E no susto, a vida correu.

Estamos em maio de 2026. Ontem, eu relembrei pro Gabriel, nossa conversa de março sobre minha ida ao teatro assistir “Rita Lee- Uma autobiografia” em Uberlândia.

O espetáculo foi lindo. Muito empolgada e emocionada comecei a contar pra ele.

Falei, falei, como se o mundo fosse acabar. Com olhar atento, ele arregalou os olhos cor de jabuticaba.

_ Quanto você pagou mãe?  

_ Uai, paguei meia-entrada por causa da minha idade.

_ Foi caro.

_Mas, Gabriel.

Quantos pretos? Mãe, quantos pretos tinham no teatro?

Voltei o meu olhar para o público quando cheguei e quando saí. Inúmeros brancos.

  

A tarde se despedindo, meu café à espera desde o início da conversa. Percebi então que, mãe nem sempre ensina. Mãe aprende. Principalmente sobre questões raciais.

  Parafraseando o cineasta ituiutabano, João Batista de Andrade:

“É preciso ampliar o acesso, ainda ridículo do povo brasileiro ao TEATRO”.

Do povo preto.

Eu e o Gabriel temos nossos momentos de conversas.

E, sobre o preço do teatro, na conversa de ontem, ele acrescentou:

_ O preço do cinema, também é caro, mãe.

Eu acrescentei:

Livros.

_ Não, livro tem os sebos, bibliotecas públicas, muitas opções.

Verdade. Tenho 350 exemplares na minha biblioteca física. Haja livros para um espaço ínfimo. Prometo não comprar mais livros. Mas é mentira.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Não amaremos >> Sandra Modesto

 Não amaremos

Se eu disser que vi você

 sem dizer o poema

Eu escrevi falando de nós. A chuva no meio da noite, o sorriso no ponteio da gente

Se eu inventasse um amor de abraçar a nuvem no canto do sol

Nossa dança embriagada, o beijo de estalo, o povo assistindo, o brilho do nosso olhar e dos nossos sorrisos. 

Se eu nunca mais te visse

Se eu escorregasse nesse lamaçal da vida

 Se eu mudasse de ideia

 Envolvesse nossas pernas na quentura da noite calma num verão imenso.

Eu olharia no grito da manhã, os galhos balançando, a terra molhada com cheiro de vida. 

E os meus versos

Pode acontecer um poema com letras grandes num cartaz: eu te amo, eu te amo, eu te amo, & entornasse a ternura na toalha branca.

Se eu te dissesse adeus. Um adeus pequeno. Interrompendo a inquietude.

È este o poema. Um dilema sem fim.

É a vida cuspindo exaustão. A preguiça, o suspiro, o bocejo.

O resquício de alguma estrofe, o fio de uma história mal escrita, sei lá, é o tempo. E isso é o que resta.

Se eu disser, que é tudo invenção desse momento

Essa saudade desvairada. O nosso retrato bonito na porta da geladeira.

Talvez, seja assim, o jeito menos sofrível de não amar.

Se mudarmos de ideia, amaremos o vento, onde tudo começa.

 

domingo, 19 de outubro de 2025

Revista O Bule: Certo dia...

Revista O Bule: Certo dia...: Dedicado aos colegas escritores brasileiros que, apesar dos pesares, fazem a literatura brasileira contemporânea.   Por Krishnamurti Góes...

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

domingo, 18 de maio de 2025

Por enquanto, outono

 


Os sóis dos domingos dessa estação me levam a vaguear. Visto minha calça legging, uma blusa confortável, nos pés, tênis e meias para o meu passeio pelas ruas próximas.

 Resolvo caminhar pela praça. Subo a rampa, desço pela escada, na verdade, uma atividade física gostosa. Olho a decoração grafitada, admiro a arte exposta. Quem passa, limpa a câmera do celular e registra a arte de rua. É o bairro Natal. Bairro de periferia. 

E assim, sigo meu caminho com o sol tímido, meus passos fortes e a suavidade da vida que eu invento. Talvez recriar seja o verbo mais certeiro na minha caminhada. Passo perto de uma turma de garotos jogando bola. Observo. Tinha um garoto sem camisa e com uma calça de malha surrada. Alto, magro. Bonito, a pele brilhava diante do sol. Tinha um baixinho com camiseta e bermuda.

E mais uns três, mas o diálogo, a conversa entre eles prendeu minha atenção.

 “E o Vinicius, hein”?

 “Pois é”.

­_ Ou, o Vinícius era louco. Pô, que saudades daquele tempo!

_ Bons tempos! Né? Bons tempos. Tempos que não voltam mais.

Fiquei intrigada. Os meninos, pela aparência, tinham de 13 a 16 anos.

E já tinham saudades do passado?

O que será que aconteceu com Vinicius? Mudou de cidade? Morreu? Foi preso?

Sim, foi tão importante que está preso nas memórias da turma. E marcou um golaço no meu domingo de outono.

É hora do café forte, sem açúcar. Mas com afeto.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

NAQUELA ESTAÇÃO>> Sandra Modesto

 Naquela estação

Eu tinha 15 anos e uma noite perdida no tempo. Era inverno, era uma festa de despedida na escola. Quase todos me notaram e senti que era por causa da minha roupa. Meu collant branco com mangas compridas, uma calça de brim azul e um par de seios eriçados. Pedro me tirou para dançar, o amigo de meu pai que estava passando uns dias lá em casa. Tocava violão. Eu gostava quando ele cantava.

 Mas na noite da minha primeira liberdade eu flutuava na pista de dança, um moço de olhos azuis, cabelo cacheado com perfil de boa pinta, dançou comigo, me puxou até o fim do corredor, lascou um beijo na minha boca, passeou a língua na minha acreditando que podia tudo, e foi tocando meu corpo. Eu fugi. Catei minhas forças até chegar ao bar da esquina.

“Seu Ernesto, tem caipirinha?”

“E você bebe, menina?”

“Não sei.”

Cheguei antes das onze, minha mãe dormindo no sofá, o aparelho de TV ligado sozinho pelo canto. No meu quarto eu limpei minha boca, não pelo gosto do álcool, sim por causa do beijo que eu não pedi.

No café da manhã eu cantava em silêncio e rezava para o Pedro ir embora.

Meu tio pegou a gaita como sempre o fazia.  Entoando uma canção ao amanhecer, nas tardes cabíveis e em noites chuvosas.

Pedro vai embora amanhã. Tomara que não volte nunca mais.

Nesses anos quando a vida sopra, perdi meu tio, minha mãe foi velada na sala da nossa casa, eu tenho dois filhos. E meu pai, também morreu. Antes da minha mãe.

É quase verão. A foto dos meus pais está rasgada, porque estava num álbum e, abruptamente, eu puxei.

Acordei quando minha coluna fez um estalo: crec!

Meus filhos querem almoçar.

Por que eles sentem tanta fome?

A pia amontoada de louças. Minha coluna não está tão ereta e tomei um analgésico para engolir a dor.

É cada história presa nessa vida. Por isso eu conto.

“Mãe, você escreve?”

“Escrevo. Só não gosto de cozinhar.”

 Eu escrevo porque leio, viu?

Vinícius me olhou, balançou suavemente a cabeça, entrou no quarto, fechou a porta com uma placa: Não enche.

Vitória foi estudar com a namorada.

E muitos anos se passaram. Afonso, o último a entrar na história, me encanta com uma canção de amor.

Depois de trinta e cinco anos juntos num mesmo lar, nem sempre doce, a gente ainda se amava. É um caso de amor em meio a janeiros sorrateiramente manso e forte.

Soube que o seu Ernesto toca um bar na praça da cidade. Com uma clientela fiel. E tem caipirinha. Mas ele já tá velho demais pra vida noturna.

A escola fechou. Num estalo tudo muda no corpo, na vida. Na varanda, deslizo meu corpo no chão como uma menina. Aquela menina de 15 anos me abraça.

Pedi uma cerveja no bar da esquina. Espero não chorar sozinha igual minha mãe quando cortava cebolas.


terça-feira, 18 de março de 2025

SANTA IRACEMA >> Sandra Modesto

 Santa Iracema

Na reza de todos os dias, tudo era para o povo de uma pequena cidade.

Uma mulher benzedeira, algumas dores, quando tudo se encolheu, a terra distante abasteceu-se de histórias de todos os cantos.  

 “Vó! De novo? Reza comigo, fia. E pega o terço”. Maria bocejava e obedecia.

Em Santa Iracema era assim. Às seis horas da tarde tudo era sagrado. O povo parava para ligar o rádio e todo santo dia, a ladainha espalhava-se no pequeno vilarejo. As famílias crentes numa fé na cura de todas as dores. Produziam alimentos com vontade. Hortas nos quintais, folhas de alface que serviam para acalmar, couve, e muito funcho porque cólicas dos bebês nascidos ali, o chá sossegava o sono, o choro, aliviava o cansaço das mães. Vó Cândida era pura devoção. Além do terço, frequentava o pai de santo, entendia Deus como semelhança das gentes de Santa Iracema. Mal o sol se entendia pela janela, toda a vizinhança se achegava feito colcha de retalhos cobrindo a encruzilhada da vida.

Aos poucos muitas pessoas deixavam o vilarejo. Maria também.

E o tempo corria. MAS “fazer o quê”? Cada um tem um dom de ser livre, voar e, talvez, voltar. Surpreender, contar muito com poucas palavras. Sem afogar a memória.

“Bença, Vó”.

Todas as noites longe de Santa Iracema, Maria falava um tiquinho com a avó. Cândida abençoava sempre. Escondia as saudades da menina sem mãe, pai desconhecido, porém, coberta de amor pela doçura de um viver.  Com afetos e o céu alumiando, no sobe e desce de cada amanhecer. O vilarejo tomou novos ares. Pessoas novas indo embora, pessoas mais velhas segurando os nós de quem ficava.

O doce feito no tacho, a banha do porco, as hortaliças frescas nos arredores de Santa Iracema. No estalar de dedos, os anos romperam-se... Teresa entrou na história de Maria.  

Era muito tarde, quando na porta, vó Cândida ouviu três batidas. Lentamente os passos conseguiram abrir a porta de madeira.

 Maria foi assuntando sobre a visitante.

 Sabe vó, vim te apresentar , Teresa.

Sem responder com palavras, apenas o abraço foi o suficiente.

Risadas pelo ar. Jantar com sabor regado por tanta coisa gostosa.

Naquela noite, o céu tinha um azul meio sonolento. Meio cansado, talvez, anunciava um adeus.

Maria olha dona Cândida observando a doce forma daquela ligação de tantos momentos. Antes do fim, Cândida sorriu para Maria e Teresa.

Quando o sol desencantou o brilho, Santa Iracema perdeu o encanto.

Duas mulheres esperavam o trem na estação mais próxima.  

O tempo não corta tudo. Resiste a cada instante. Porque dança, enlaça, costura infinitos afetos.

Seria isso o coração pulsando? Um abraçar permeado nas expressões.

“Vó”! “Fia”!


domingo, 29 de dezembro de 2024

Naquela mesa >> Sandra Modesto

 Naquela mesa

Os dezembros não são os mesmos desde a Pandemia. No dia 31 de dezembro do ano estarrecido, corroído no vazio de muitas famílias, como cantar em coro, adeus ano velho feliz ano novo?

O ano velho levou para sempre, os que  não estarão na última festa.

Dá pra dizer feliz ano novo olhando a mesa incompleta? Cadeiras vazias, olhares disfarçados tentando os risos fracos. Porque a vovó não está ali, o avô, as tias, os tios, a amiga, o amigo.

A professora que contou histórias, as conversas marcantes, agora distantes demais.

Elas e eles viraram covas. Nas setecentas mil vidas perdidas, seria espanto, reforçar que quatrocentos mil pessoas poderiam estar vivas? Por isso meu bem, no último dia de todos os anos, recolha sua dor, não ignore a miséria do Brasil de 2019/2022. Saboreie devagar ao comer pedaços de lombo assado, lembre- se que durante o governo do inelegível, pessoas enfrentaram a fila do osso. Cataram comida no lixo.

E se puder, assuma sua estranha paixão pela vida.

Naquela mesa incompleta. O forro branco escorrendo pelos cantos.

O feliz ano novo será meio assim, implacável na canção destoada. Feliz ano novo?

Não. Cada um vai chorar em silêncio

E recolher as sobras das saudades.

domingo, 16 de junho de 2024

Bento

 

BENTO

 

As noites de Ana eram sempre iguais desde criança quando ainda sonhava em colocar perna na boneca quebrada. O pai entrava no quarto, deitava na cama e beijava Ana com a língua. Apalpava os seios, feito o cara chamado tarado. Pelo menos, era esse o nome que as meninas da quarta série primária da escola da vila ouviam pelos corredores na rispidez do recreio: “Olha, o tarado pega na bundinha da gente, e põe o negócio duro pra fora, cuidado.”.

Aos 15 anos, a menina desejou comer manga verde com sal.

A avó lembrou-se do genro pelas madrugadas, o diabo rondava no coração daquele monstro. Era lá, onde o inferno morava. Ana agora olhava para o berço do menino. Odiava a barriga esticando mês a mês.

Não era esse o sonho. Se um dia tivesse filho o nome seria Bento.

As manhãs entremeadas por longos silêncios.

Um verão covarde. Assim como a existência desse mundo.

A avó estendia roupas num quintal sujo.

Pisando no meio adeus, a menina pegou o revólver na gaveta do pai.

O berço, os peitos cheios de leite. Uma santa quebrada. Dois tiros.

No dia seguinte, a notícia no primeiro bloco do programa Chumbo Grosso.

– Tudo bem, filha?

– Tudo.

A mãe desnorteada cobriu o corpo da filha.

E lavou o corpo com o sangue.

 


domingo, 21 de janeiro de 2024


 










Quarto turno

Eu soube há pouco tempo a respeito de um campeonato de ioiô.

Era uma tarde quase no final, mas o café esfriava, enquanto eu era apenas uma senhora de pernas pro ar escolhendo um filme para assistir.

De repente uma num voz de um jovem com mais de 1,90 cm:

“Mãe, você sabe onde vende ioiô”? Eu preciso muito.

_ Espera aí. Na lojinha da esquina tem. Chegando à lojinha, que vende tudo, o diálogo:

Moça tem ioiô?

Tem. É bom, né? Criança gosta. (risos). Se ela soubesse a idade de quem queria...

Na volta pra casa, já fui avisando.

Eu achei. Vai comprar.

Ele chegou e, parecia uma criança com o brinquedo enrolado nos dedos fazendo mil malabarismos. Observei a cena.

_ Mãe, eu participava de campeonatos de ioiô quando eu era criança. Venci muitos. Não lembra? A gente morava no bairro Junqueira, eu brincava na rua, um cara organizava os campeonatos, a molecada se divertia muito.

_ Não me lembro.

Ah, mãe, é porque, na época, você trabalhava quatro turnos.

Ele continuou brincando. Eu olhei para o tempo. Arrebatada com a descoberta do quarto turno. Sim, eu trabalhava o primeiro turno, o segundo turno, o terceiro turno. O quarto, bem, esse era o turno quando eu chegava à minha casa, organizava as tarefas domésticas, verificava tarefas escolares.

Cenários desse trabalho invisível, não remunerado, que a gente faz.

Por isso, atualmente, eu tenho a preguiça como uma grande companheira.

Daqui a 5 dias meus 63 anos vão chegar. Vou abrir a porta com um bolo da padaria.


segunda-feira, 4 de setembro de 2023

domingo, 27 de agosto de 2023

O BAR DOS MEUS SONHOS >> Sandra Modesto


 










Éramos jovens e no último dia das noites de sextas- feiras, o bar nos chamava. Risadas e embriaguez naquela turma, às vezes aquietava uma mulher, aquietava o cansaço de uma semana inteira à espera do encontro. Lá, era bonito. Catávamos esperanças, todas no mesmo espaço. Lembro-me de um violão, uma professora cantava fado. Um moço perto dos cinquenta anos. Pedia:

­_ Canta Reginaldo Rossi.

O moço gritava...

“Toca Raul”

Eu emendava:

_ Pode ser Chico Buarque?

O garçom, amigo de todas e todos, servia- nos, cantarolando baixinho:

“Já cansei de escutar centenas de casos de amor”

Pois então, seu garçom, cadê o Karaokê? A gente faz um desafio pra testar quem desafina melhor.

Eu só cantava chuva de prata porque meu tom é agudo.  Dizem né?

“Um beijo molhado de luz sela o nosso amor”

Mas eu sei de cor e canto com boa entonação, “O bêbado e o equilibrista”. No chuveiro, por causa da acústica do banheiro.

Ontem, quebrei um silêncio na sala e disse pra o meu filho:

O Tony Ramos não tem rede social e Glória Pires não tem Watsapp.

_ O Quê? Mãe! Caiu na gargalhada.

Gente é banal, eu sei. Aprendi a quebrar silêncios, para lembrar de bar.

À noite, não pedi ajuda e abri uma cerveja em lata. Não deu certo porque minha força não foi suficiente, achei um abridor. E o lacre caiu dentro do copo. E a cerveja estava quente.

Ainda bem que é o último domingo de agosto. Em setembro, volto com o bar, uns petiscos e muitos sonhos.


domingo, 6 de agosto de 2023

A VENDEDORA >> Sandra Modesto


 










A VENDEDORA (26 de junho de 2022)

Tudo começou em fevereiro quando eu anunciei pelas redes sociais: “Em breve"

Depois: "Lançamento em abril"

E o alvoroço se fez. Qual o produto que eu ia lançar? Eu me segurei no limite da ansiedade.

Recebi o PDF do livro para revisão, a foto da capa do livro, o miolo do livro. Tudo era livro. Tudo. Assim como a vida, que às vezes, nos leva  a pedir socorro

Bom, o "Era Sábado" é um livro de crônicas. Como divulgar o livro sem ele nas mãos? Eis minhas ideias...

A epígrafe é o trecho da letra de João e Maria de Chico Buarque e Sivuca. Eu postei uma imagem da música explicando que a primeira crônica do livro tinha o título da música.  

O David, da crônica “A Casa de Davi", é o meu vizinho pequerrucho, ele perdeu o vovô  no final de 2020. Chorou pela calçada da minha casa. Abri o portão, abracei- o bem forte e disse:

“Seu vovô morreu, mas estará sempre vivo aqui oh, dentro do seu coração."

Vi muitas meninas na  calçada da casa do David. Por  vários dias. Vieram para se despedir do avô. Fui até lá. Conversamos sobre sonhos, sobre o adolescer. Tiramos uma foto com o sol aberto, a luz estava linda. Divulguei a foto e contei sobre minha personagem da vida real.  Mas cadê o livro? Chegou dia 2 de maio. 4 de maio, lançamento virtual com o editor. Via Youtube.

O lançamento presencial foi dia 10. Com filho, marido, muitas professoras e muitos professores, muitas amigas do meu filho, me prestigiaram comprando o exemplar. 

Um dia antes, eu fui vacinada com a quarta dose da vacina. Ainda estou vendedora.

Pelo status do Watsapp, pelo Twitter, pelo story do Instagram. Dos 129 livros, 1 é meu. 128 livros. Restam 38. Calma, gente. Eu espalhei livros.

Nas bibliotecas de rua, na biblioteca da fundação cultural do bairro onde eu moro, na biblioteca municipal, presenteei quem não pode comprar, fiz parcerias, sou a autora que pariu o terceiro livro. Cuido dele. Porque para ficar vivo na memória é precioso muito cuidado.

O mais bacana é receber fotos dos leitores com o livro e suas leituras sobre minhas crônicas.

E assim é Era Sábado. Com jeito de gentes. 

Por enquanto, preparando o quarto livro.

“De novo com a coluna ereta, Juntar os cacos, ir à luta

Manter o rumo e a cadência

“Esconjurar a ignorância, que tal”? (Chico Buarque de Holanda e Hamilton de Holanda)

 


domingo, 11 de junho de 2023

SOBRE UMA VOLTA AO PASSADO >> Sandra Modesto

 











Sobre uma volta ao passado.

No final dos anos setenta, minha mãe ficou preocupada e, conversando com uma amiga que vira e mexe estava lá em casa, confessou:

“Não sei o que eu faço com a Sandra, quando ela casar. Ela não sabe nada de dona de casa. Não sabe cozinha. E nem quer aprender. Fico preocupada.”

O que minha mãe queria ouvir era uma concordância e uma ajuda. Mas...

“Jacinta, sua filha é das letras”. Você ainda não entendeu?

Um sol ameno naquele mês de junho. Naquela tarde as duas amigas tomavam chá de canela e comiam biscoito frito de polvilho. O centro da mesa forrada com toalha xadrez, às xícaras esmaltadas, uma moça de 17 anos com mania de ouvir conversa de adulto às escondidas, ligou o rádio, pegou um caderno e escreveu a primeira crônica. Sem saber de gênero literário, sabia apenas que a conversa entre a mãe e dona Luísa, gerou vários pensamentos.

Nos anos oitenta, a filha da dona Jacinta escolheu o curso de Letras.

Pois então...

Ao ver a filha estudando a mãe confessou:

“Filha estuda mesmo. Para ter uma profissão e não depender de dinheiro de marido.”

A vida tem lá seus encantos.  Nesta tarde fria, leio um livro, corro até a cozinha e tomo café forte, com pão de queijo, um bolo de fubá. Quem preparou o café foi meu marido, mãe. Ando muito ocupada. Porque estou preparando o meu novo livro.


RUA DOCE MISTÉRIO >> Sandra Modesto

  RUA DOCE MISTÉRIO Conheci Edgar numa noite estapafúrdia Ele sequer imaginava que eu, aos dezessete anos, fazia licenças poéticas Vár...