domingo, 30 de janeiro de 2022

PETISCOS DE DOMINGO >> COM AÇÚCAR- COM AFETO- COM NARA


Acordo sempre depois das dez da manhã. Só consigo tomar café sem açúcar, forte, quente, vivo. Durante toda a minha infância e adolescência minha mãe nos proibiu de tomar café. Era chá. Doce, de canela, com afeto. A primeira vez que senti gosto de café, eu tinha 18 anos, quando entrei para o mercado de trabalho. Numa empresa que servia café, experimentei e pronto. Tomava café na empresa, não tomava café em casa. A explicação da minha mãe era a de que prejudicava o sono. Dona Jacinta e suas razões.

Nesse texto nostálgico, meio vida aos 61, é apenas uma forma de começar. Na sexta-feira à tarde, sob um calor de 34 graus, deitada no sofá, assisti – O CANTO LIVRE DE NARA LEÃO. Tenho por mim, que de um jeito doce e ao mesmo tempo forte, Nara revolucionou a música brasileira. Musa da bossa-nova rompeu preconceitos confrontou a ditadura militar. Sem alterar o tom de voz. O que permitiu a ela, abrir espaços para as mulheres. Mas o documentário trouxe á discussão rasa e imprecisa, a música, “Com açúcar com afeto”. Eram os anos setenta, Nara pediu que Chico Buarque compusesse uma música sofredora, dando vazão ao amor de um casal típico onde o homem era o macho livre. No documentário, Chico explica que o pedido foi de uma música sofredora. Ele fez. Ela cantou, ele também. As feministas reagiram à letra, o que é perfeitamente compreensível. O importante é a desconstrução do machismo. Apesar do lirismo na música, a letra é dos anos setenta.

Não havia movimento feminista.

Brasil 2022, discutindo o Brasil em 1976. Nara cantou “Os Saltimbancos”- (História de uma gata) cantou Dueto, cantou muito Chico Buarque. Era a favor da pílula, do divórcio, e parou de cantar quando foi mãe, para se dedicar aos filhos.

Deixemos a interpretação de com açúcar com afeto, no coração. Chico Buarque apoiou a causa feminista, o que o torna mais lindo. Não vai cantar mais a música, acredita que se Nara estivesse viva, também não cantaria. Remover a música da história é impossível, estará no youtube e nas plataformas digitais. Fernanda Takai já afirmou que continuará a cantar a música nos seus shows.

O CANTO LIVRE DE NARA LEÃO está em cartaz no Globo Play.

Sandra Modesto 


domingo, 26 de dezembro de 2021

ROSA EM EDIÇÃO >> Sandra Modesto

 Rosa estava fugindo de notícias ruins.  Acordou meio desanimada.  E num cansaço estranho voltou a dormir. Sonhou... Uma notícia boa num jornal.

Arrumou um tempinho e se espalhou.

Preferiu as rosas. Elas não falam, mas há o desmedido amor manso dos girassóis. Rosa não preteriu – se.

Gritou. Havia silenciado por tantas vezes. 

Quis inventar. Qualquer linha, qualquer embaraço alguns escritos. Lá fora, o mundo grita por mim? O despertar ofegante e o texto surgiram sem fuga.  

Os minutos estão fragmentados. Pessoas morando nas ruas. Crianças trabalhando, governo sem planos de vacinação infantil.  O que é isso Brasil!

Difícil escrever senta na poltrona, desiste. Insiste. Esquece o teclado. Usa bloquinhos de papel.

Na imaginação fértil de um útero poético, Rosa imagina- se uma fotógrafa registrando as ruas por onde passa. As luas. O raio tão forte e o namoro de duas mulheres em praça pública.  Cenas de cinema. Porque na vida real, há tabus. Rosa adormece.

Ao acordar enfrenta o noticiário. “Um nó no peito em dó maior” (Verso do texto, “A dor da gente” escrito por mim).

Rosa faz xixi e corre do espelho.  É ele que escancara quando a moça que passa o café, vê no reflexo de dentro, uma vontade imensa de mudar a história. Um livro marcado na penúltima página. Escrito em letras garrafais, um espetáculo permeado por liberdades.   Num sábado cretino, uma solidão que avança o tempo. Um caderno, uma prateleira empoeirada, uma alergia pequena.

Apenas a certeza seria a hora da morte do ultimo ato ou capítulo, ou algo capaz de atormentar o leitor, o espectador, o paraíso proibido ficaria explícito numa vulgar edição.

Nada é inédito. Restam apenas os dentes passados no fio dental. Uma câmera imaginária atravessa uma possível filosofia de botequim. Rosa sabia das dores de uma mulher. Escreveu e contou tudo antes do morrer dos dias. Tudo é brisa. É merda. Aplausos ou nada.


 

sábado, 27 de novembro de 2021

Crônica de Sandra Modesto

 CENAS DE NOVEMBRO

Um copo cheio de água é a única inspiração do dia. Palavras escorrendo goela abaixo escuto o apito da escola no quarteirão da minha rua, aulas presenciais no último bimestre.

Atravesso quarteirões com minha roupa justa e o sol batendo no pedaço de rosto, nas costas, braços, colo. De repente, respingos de chuva bêbados prenunciando o verão.

Nesse quase dezembro meio doído.

Algumas dúvidas carregam suportáveis restos.

Meu olhar segue pelas avenidas. O moço passa por mim, sem máscara. “Essa gente sem proteção”. Sinto-me uma estranha querendo julgar as pessoas.

Envolta nessas intrigas, fiz uma rápida filmagem artesanal das horas em que chorei e prossegui.

No boteco da esquina, uma confraria sagrada de homens, bebe cerveja. Passo por perto.

A chave do portão enfia na fechadura.  Reabro minhas intenções.  Falta pouco, muito pouco pra eu segurar o tempo. Banho frio relaxando nuca, libido acesa descendo por todo o corpo. Afago meus cabelos brancos numa lentidão proposital.

São sete horas da noite. O vendedor de abacaxi interrompe minha escrita. “Duas por oito reais, docinhas”. Compro. Eu, que nem gosto de abacaxi. Mas o moço tinha razão.

Vou dormir ao som imaginário de um show ao ar livre.

Desperto sem hora marcada sem correria sem frenesi.

Quando a fumaça do café se espalha pela cozinha, viro a privilegiada arrumando o desjejum de tudo o que eu gosto. Uma luz natural atravessando a janela e a porta, um vulto de mulher me assusta pelo vidro da mesa. Sou eu.

Ainda não é tempo de abraçar um mundaréu de gente, ainda conversamos com máscaras, às vezes sorrimos com os olhos. Há lirismo nesses dias despedaçados.

Uma dança com leves sonetos / eu quero escrever / depois do vendaval.

 

domingo, 14 de novembro de 2021

NA FILA DO OSSO >> Sandra Modesto

 Eu enfiava a cara no trabalho. Trabalhava mesmo. A sopinha pronta da Nestlé, não perdia tempo com esse negócio de comida caseira. As fraldas descartáveis, o iogurte que ajudava no crescimento, a camiseta de grife, o bife de filé. Por isso eu enfiava a cara no trabalho. A dona Cida babá das crianças do mesmo prédio que eu, me olhava de um jeito como se perguntasse por que eu não parava em casa. Se eu não enfiasse a cara no trabalho, eu não moraria naquele prédio. Meus filhos em escola pública? Nem pensar. E a bola cara para jogar com os  amiguinhos ricos, é por isso. Enfiei muito a cara no trabalho. Minha filha fazia inglês na Cultura Inglesa. Currículo impecável. Valia a pena pagar esses privilégios. Ah daqui a pouco eu vou trabalhar, amanhã eu vou trabalhar. 32 anos assim nessa labuta. É noite. Na tela da TV, o jogo do flamengo. Fico plantada com a bunda no sofá vendo o jogo.

Esse time sempre ganha?

Meu filho e meu marido gritam gooool como se o mundo fosse acabar.

Abandono o clima. Desligo o ar condicionado e pego o celular pra falar com a filha. Ela mora em outra cidade e trabalha numa multinacional por causa do tempo em que eu enfiava a cara no trabalho. Vou dormir rolando na cama comprada em dez prestações. Meu marido trabalha em duas escolas públicas. A gente mora numa casa alugada. É tão bom morar aqui. O Chico late muito alto como se cantasse Caetano. Ao acordar depois da noite vadia que invadiu meu sono, vou ao supermercado encher meio carrinho de compras. A dona Cida está velha. Não me reconheceu. Ela tentando comprar uma cartela de ovos, e os olhos famintos chegavam a brilhar. O moço anunciando a promoção do frango, da alcatra e do coxão mole.  Meus olhos reviveram a dona Cida quando ela enfiava a cara no prédio, brincando com os filhos da patroa. Ela nunca teve tempo para cuidar das filhas que ficavam na creche enquanto ela acarinhava Davi e Laura. Daqui a pouco tem futebol na TV. Hoje eu comemoro meu próprio gol. O grito feliz por não morrer de tanto trabalhar. Meu filho me conta da atual namorada: Elisa. A Elisa que tem uma irmã chamada Rita, um pai desconhecido e a mãe se chama Maria Aparecida.  Meu filho Disse que vai ao churrasco do aniversário da mãe de Elisa. Ele levou cervejas. A picanha e o filé de frango eu comprei pra dona Cida. 

domingo, 31 de outubro de 2021

Naquela mesa >> Sandra Modesto

 Daqui a dois meses, no dia 31 de dezembro do ano estarrecido, corroído no vazio de muitas famílias, como cantar em coro, adeus ano velho feliz ano novo?

O ano velho levou para sempre, os que  não estarão na última festa.

Dá pra dizer feliz ano novo olhando a mesa incompleta? Cadeiras vazias, olhares disfarçados tentando os risos fracos. Porque a vovó não está ali, o avô, as tias, os tios, a amiga, o amigo.

A professora que contou histórias, as conversas marcantes, agora distantes demais.

Elas e eles viraram covas. Nas seiscentas e sete mil vidas perdidas, seria espanto, reforçar que quatrocentos mil pessoas poderiam estar vivas? Por isso meu bem, no último dia de dois mil e vinte um, recolha sua dor, não ignore a miséria do Brasil, saboreie devagar ao comer pedaços de lombo assado, lembre- se das pessoas comendo osso, catando comida no lixo, e se puder, assuma sua estranha paixão pela vida.

Naquela mesa incompleta. O forro branco escorrendo pelos cantos.

O feliz ano novo será meio assim, implacável na canção destoada. Feliz ano novo?

Não. Cada um vai chorar em silêncio

E recolher as sobras das saudades.

 ( Crônica publicada hoje, no site: Crônica do dia)

domingo, 24 de outubro de 2021

ELE ESTÁ CHEGANDO>> Sandra Modesto


 










Faltam dois meses. Apenas dois meses para o tradicional, nem sempre amado, arroz com passas.

A farofa, o peru, o feijão tropeiro, mas eis que colocam à mesa, o arroz.

Retiro as passas uma por uma as escondida. A discussão é: Arroz, com ou sem passas?

Feijão tropeiro ou tutu de feijão? Tutu é mais mineiro, gostoso, mas exige talento culinário.

Epa! Eu não sei fazer. Minha tia sabe. Aquela tia que domina essa arte. Cozinhar é uma arte. Essa arte eu admiro.

Daí vem o peru. Deixa-o pra lá. O povo, esse povo invisível, está passando fome. O melhor presente para as pessoas famintas é uma boa cesta básica. Porque precisamos entender a fome do outro. E ajudar. Com ou sem passas. Com carne. Porque a fila do osso está aumentando.

Em algumas regiões do país, relemos Manuel Bandeira. Poeta pernambucano, ele retratou a miséria brasileira em 1946. “O bicho” voltou.

“Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos

 

Quando encontrava alguma coisa

Não examinava nem cheirava

Engolia com voracidade

 

O bicho não era um cão

Não era um gato

Não era um rato

 

O bicho, meu Deus.

 

“Era um homem.”

 

Façamos da nossa ceia de natal, uma noite possível. Afinal, o almoço do dia 25, serão as sobras do que restou, a gente esquenta e come. E haja remédios caseiros ou industriais para melhorar a dor de cabeça do porre.

Bom domingo pra vocês. Eu volto depois do natal. Beijão! Usem máscara, vacinem, cuidem- se. E cuidem dos seus.

 

 


RUA DOCE MISTÉRIO >> Sandra Modesto

  RUA DOCE MISTÉRIO Conheci Edgar numa noite estapafúrdia Ele sequer imaginava que eu, aos dezessete anos, fazia licenças poéticas Vár...