Leiam minha crônica de hoje. Cliquem no link abaixo:
http://www.cronicadodia.com.br/2020/12/quebradas-sandra-modesto.html
Blog pessoal. Conteúdo literário com textos da autora e escritores de sua preferência. Dicas de livros, músicas, vídeos, projetos culturais. Resumindo: "Aqui tudo é arte"
O dia parecia um convite ao amor.
Era “domingo”. O
domingo de Clarissa. O dia dela e de João.
Clarissa gostava
muito de João. Do abraço apertado de João, do beijo louco!
Um amor nutrindo
– os vigorosos que fazia- os chorar de dar risadas.
Por causa dele,
os detalhes extasiariam o domingo. E isto estava bem estampado em olhares,
sensações, vibrações.
Os domingos
esperados sempre ficavam distantes de um dia normal, casual, certeiro. Ah! João e Clarissa viveriam o imaginado. Sonhado
por eles desde que se conheceram. Clarissa sentia que o simples querer em ver
João. Era um querer. Um baita querer.
Foi então, que
se olhou no espelho. E percebeu...
“Deslumbrante”
Disse Clarissa à sua própria imagem. O
vestido azul de domingo,
(Azul, dum azul do
céu, do lápis de cor) feito à mão, destacando-lhe os seios empinados. O resto
só João podia tão bem descrever!
Nos cabelos escuros,
Clarissa prendia um rabo de cavalo só para João desprender, para antes de
desprender roçar - lhe a nuca e enfiar os dedos longos suavemente e
despenteá-los. Em frações de segundos os dois estavam hipnotizados. Do jeito
deles. Criando um ninho peculiar, uma mistura de amor e motivos de segredos.
É que na
verdade, só de pensar o domingo sem João, Clarissa perdia o enredo escrito de
um dia encantado, os momentos silenciosos nos olhares, o avançar da pretensão
do amor.
Tudo ficou tão
mais bonito quando João apontou na rua. Clarissa ficou ansiosa. Uma
Ansiedade desenhada
em cores e paixão. O coração marcado por devaneios...
Naquele domingo,
como de costume, João almoça na casa da amada. E no findar da tarde...
A família
reunida envolvida com a rotina do domingo, já tinha contado piada, tomado
cerveja, ido à igreja. Clarissa e João saem para um passeio...
No caminho; Um
afago, beijos, pele, almas.
João conta seus
planos; Um casamento eterno. Seu sonho maior: Ter filhos parecidos com Clarissa.
No quadro vivo
do passeio, o verão insistia em fazer parte.
Chegam a um
lugar de muito verde.
Unindo-se ao
verde, um rio com uma água muito cristalina.
De repente, uma
chuva... A água morna do tempo quente coloca à mostra o vestido grudado ao
corpo de Clarissa. João a abraçou com ternura e vontade. E os dois, se amam no
domingo. Ali, debaixo da chuva. A história aconteceu nos anos setenta. Clarissa não existe mais. Foi tragada pelo
tempo. João perdeu – se no rabisco qualquer.
É
uma conversa com o Gabriel.
_ Eu sou preta, né?
_ Você? Não, por favor,
não faça isso comigo. Coloca seu braço perto do meu. Qual a cor dele?
Eu olhei, olhei,
observei a não semelhança e o bate – papo rolou.
_ Mas meu pai, meus avós
eram pretos.
“Frase típica de quem
não tinha o que dizer”. Seria melhor eu ter ficado calada. Caramba!
_ Mãe, eu sou preto.
Você é uma miscigenada, apenas. Seu tom de pele é muito claro, seus cabelos não
são afros, o que significa que se você continuar com essa ideia, será
estupidez.
“Mas quando eu tomo
muito sol”...
_ Sei. Você fica
bronzeada. Preta não, mãe. Preta nasce preta. Sofre racismo, luta para um lugar
ao sol. No mundo dos brancos privilegiados. Para com isso, mãe. Eu te admiro
tanto.
Meu filho foi lanchar
na cozinha. Eu também. Olhei nos olhos dele. Pedi desculpas pela minha
insensatez. Só não contei que sabia que eu não era preta. Mas sou, serei a mãe
antirracista para sempre.
“A conversa já faz muito
tempo, mas é uma crônica real, nesse Brasil PANDEMÔNIO”.
Sandra Modesto
#petiscosdedomingo #cronica #cronicadodia
SAIR
DE MANHÃ E TOMAR UM SOL
24
de outubro de 2020 – Recebi uma mensagem da minha prima, Gilca, que mora em São
Bernardo do Campo.
Eu,
acostumada com notícias tristes no ritmo do frenesi atual, já sofri um trem.
“Trem” no vocabulário mineiro tem vários significados. No caso daquele dia, meu
trem imaginou a estação do “ruim”.
Li.
Um convite para a defesa de doutorado. Que trem bão! Por causa da pandemia a
transmissão seria virtual. Agradeci, gritei, mandei emojis. Foi uma tarde feliz
de sábado. Como se a vida estivesse renascendo. E a janela namorasse o interior
da minha casa.
Minha
família é rodeada por mulheres. Tenho primas espalhadas nas páginas de um
livro, nas fotografias, na observância das conquistas.
26
de outubro às 14h, o link pra eu assistir. A transmissão via Meet, não sabia
muito como era o tal meet, mas tenho o aplicativo no celular. Pedi ajuda e
entrei.
Minha
prima sendo avaliada pela banca de professores, uma plateia do lado de cá. Eu
me emocionando feito menina grande.
A
Gilca foi aprovada. Tese: Fundamento
Filosófico da Pedagogia Multirracial: Propostas dos Movimentos Negros do Rio de
Janeiro e Santa Catarina (1980- 2000)
Tenho uma prima negra, linda, batalhadora, e a
partir daquele momento, Dra.
Este
título significa mais que uma conquista, é muito trabalho árduo e ternura.
Houve
um momento em que eu chorei ao assistir à cerimônia. A Gilca disse...
“Eu
passei meses e meses me dedicando ao trabalho, foram noites e dias pesquisando,
agradeço aos meus orientadores, e ofereço meu título, à minha mãe”. “Ela tem 87
anos, não teve oportunidades de estudo, mas sentava ao meu lado e perguntava sempre
se estava tudo certo”.
Embargou
a voz...
“Eu só sei que estou precisando sair de manhã
e tomar um sol. Há muito tempo eu não vejo o sol.”
Eu
aplaudi. Ninguém ouviu porque meus aplausos foram sem o celular.
Aprendi
que minha prima tem razão.
É
preciso sair de manhã e tomar um sol.
RUA DOCE MISTÉRIO Conheci Edgar numa noite estapafúrdia Ele sequer imaginava que eu, aos dezessete anos, fazia licenças poéticas Vár...