Confira meu conto publicado na Revista Mirada.
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Blog pessoal. Conteúdo literário com textos da autora e escritores de sua preferência. Dicas de livros, músicas, vídeos, projetos culturais. Resumindo: "Aqui tudo é arte"
SINTONIA
ESTRELA
Sandra Modesto
Peguei
um bonde ao lado de uma mulher que chorava. O bonde não era um transporte. Uma
companhia no meio da rua quieta, numa praça na beira do sol.
Eu
tive na minha vida, alguém doce como flocos de algodão, certo dia, talvez no domingo,
talvez comendo arroz com alface, talvez um tomate da hortaliça.
Quando
eu tinha quatro anos pairando em sorrisos e indagações, a mãe da minha mãe,
Baixou
uma lei: “Dos olhos de minha neta não pode cair uma lágrima.”.
De
lá pra cá, aprendi a gostar de alface com tomate, mas... Chorei tanto vida a
fora.
Hoje
eu comemoro entre sorrisos estrelares tudo o que eu conquisto.
Das
vitórias do meu filho e da minha filha, do longo segundo casamento, do acalanto
do sol, da mudança dos luares.
Estamos
em dezembro com sabor de café e doces beijos. Cato algumas memórias populares.
Nesse sertão, que vem crescendo entre luzes, asfalto, brilhos, gentes e
crendices.
“não
pode apontar para o céu com estrelas porque nascem verrugas”.
“Nasceu
com estrela na testa tem sorte na vida”
Acordei
com vontade de cantar Gilberto Gil.
Porque
a vida é pequena pra ser poesia amarga e prosa insossa.
Ah,
esses versos que eu amo...
“Há
de surgir uma estrela no céu cada vez que ocê sorrir.”
“Há
de apagar uma estrela no céu cada vez que ocê chorar.”
- Pai estraguei
sua bandeira.
- Ah,
não, Gustavo, você não fez isso.
- Fiz
pai, mas, foi sem querer, eu colei uma frase com aquela cola forte, pensei que
não fosse "tão forte"!
- É
depois sai. Com jeitinho pra não rasgar o tecido, calma, senta aí filho, conta:
- Como
foi a manifestação?
- A
minha bandeira oficial, eu nem acredito, não tenta acobertar o erro dele não,
Júlia, ele agiu errado!
- É só
mudou a frase, depois se não sair a gente compra outra bandeira, pra tudo se dá
um jeito.
- Vocês
acham tudo fácil, fácil, dinheiro, então!
- Dá pra
brigar depois e ouvir o que o Gustavo tem pra contar sobre a primeira
manifestação cidadã, política, de jovem engajado dele, por favor?
Luis se
rendeu.
- Tá
bom, filho, conta, como é que foi lá? Muita gente?
- Nossa!
Muita gente, pai. Organização boa, as reivindicações bem elaboradas, pautas
escritas e entregues para o representante do prefeito, pai, ele mandou
representante, nem teve coragem de dialogar com a gente pai, é, mas, ele vai
ter que levar a sério os nossos pedidos pai, da UFU, da UEMG, da Saúde, o povo
tá muito insatisfeito, o atendimento, e os pagamentos dos contratados que não
são pagos tem três meses, muita coisa errada, precisando melhorar, pai.
Luis e
Júlia se olharam com alegria e orgulho, uma mistura de sentimentos.
Então
aquele bebezinho de ontem, já estava virando gente, gente que luta que busca
seus direitos e que não abandona o barco.
"Meu garotão"! Pensou Luis.
Júlia
embargou uma voz silenciosa:
“O filho
que ensinei a ler, agora, aprendendo lições de Democracia”.
Mais
tarde, Gustavo percebeu a porta aberta no quarto dos pais:
- Mãe,
eu achei na internet um jeito de tirar cola de tecido, consegui tirar a frase
da bandeira, mas rasgou um pouquinho o tecido.
Sorrindo
por dentro a mãe disse:
-Ah, tá
bom, nem vai dar para notar, filho. Esquece a bandeira, o que você fez hoje,
foi muito mais brasileiro.
(Baseada
em fatos reais e dedicada à turma que participou da manifestação pacífica em
Ituiutaba em 2014)
Depois
do dia 30 de outubro, choveu por aqui. O tempo seco que retorcia galhos das
árvores frutíferas numa primavera, não deteve nossos sonhos.
Por
conta de tudo isso a bola rola para o segundo tempo, e, houve prorrogação.
Sempre
aos domingos. Sempre com a esperança, na luta, na pesquisa Datavizinho.
Não
existe facilidade. Mas imaginar um sol, uma força pela volta da Democracia, ah,
como eu esperei por ela. Foram noites de insônia, manhãs sonolentas e notícias
tristes, se eu contar que eu voto no Lula desde 1989, não é ilusão passageira.
Eu estou falando sério. Mas estamos em 2022 e a crônica tem que continuar...
Moro
numa casa há 13 anos. Vi crescer na família ao lado, duas crianças. Ana e o
irmão. À medida que foram crescendo eu me sentia a avó que ainda não sou. Minha
pesquisa no primeiro turno foi ao modo “O que será que será?”.
_
E aí, galera como está os votos por aí?
_
Na nossa família tudo é Lula.
Ao
ouvir tanta doçura meu marca- passo fez baticum dentro do peito.
Há
uma semana por essas horas eu já tinha votado. Preferi não acompanhar a
apuração pelo Twitter.
Foi
pela TV, bem acompanhada por quem esteve comigo: Marido e filho.
A
gente preferiu o amor, a gente se abraçou, a gente gritou: “É Lula Porra”!
Desde
então o meu café é forte com é forte o fole da sanfona, as cordas do violão, o
toque do pandeiro, a fé na vida e muitos petiscos com queijo ou o que mais cada
um quiser comprar. Porque vai!
Vila Despedaçada
Eu
morava distante da Vila. Quando a cidade amanhecia, minha vida puxava caminhos
diante do ângulo juvenil.
Uma
professora meio perdida no magistério sonhador. Sempre um anseio em não ser
igual ao que era imposto pelo início dos anos oitenta.
E,
enquanto o Brasil era medo, minha cidade alimentava em mim, planos a médio
tempo. Tudo corria em construção. Tudo.
Mas
comecei a entender os cortes dos sonhos, por frestas dos caminhos na cidade, na
época, com oitenta mil habitantes. No embate e interrogações da Ditadura
Militar.
Tive
que chorar com o acontecimento na vila Natal, dia seis de abril de 1984.
Era
noite. Um prenúncio de lua na ponta do céu. Apressei meus passos porque o meu
descanso era sempre um banho com água escorrendo na nuca, mesmo sabedora de uma
mulher mãe. Abri o portão apressadamente.
Cheguei e vi meu pai, minha mãe, minhas irmãs
se olhando. Num abril morno, impreciso. Diante do caos, minha filha pedindo o
afago de sempre, abracei- a para desapertar a crueza da vida.
Conferindo
os rumos pelos quais muita gente desaparece, mastiguei pouco a pouco os sinais
dos sofrimentos.
Numa
cidade agrícola, oito mil habitantes trabalhavam na colheita de algodão.
De repente, reportagem completa pela TV, a
manchete estatelada no jornal impresso de circulação nacional.
Era
a vila se aproximando de mim, situando em meus vinte e quatro anos o que era ter
privilégio e o que era ser pobre.
As
notícias sendo atualizadas. O número de desaparecidos subia. Corpos sendo
reconhecidos. Famílias velando seus amores numa mesma sala.
O
espaço foi pouco. O ritual da despedida expandiu – se pela escola pública mais
perto. Morte espalhada.
A
pobreza foi um prato frio que desceu na Vila Natal.
Trinta
e oito anos depois, a vila já é Bairro. Moro próximo a ele.
Mas
a vila desse meu lugar é um troço que me engasga. Pedaços por pedaços.
.
De tarde o barulho se aquieta. Depois das cinco e meia, que é quando a empreitada entoa a canção da despedida.
Amanhã
começa tudo de novo, mas pode ser com outros acordes. Porque o som da
britadeira, dos operários passando a pá de cal com força pelo patamar. Raspando
as mãos como se fossem quadros de arte, respingando tintas pela janela do meu
quarto, zonzo e inocente. Eu sentei mirando naquele espetáculo bêbado os cacos
de telha voando na minha cama.
Quisera
eu soubesse quanto tempo duraria a eternidade.
Nessa
garupa desse veículo chamado vida.
Antes
dessa história, antes desses dias. Mas deixa eu contar o início...
Moramos
numa casa há treze anos. Uma pré-adolescência afinal, envolta em planos de
marcar as linhas do coração. Como se a morada fosse o corpo da gente. Que fala,
ouve, canta, lê e silencia.
Barulheira
agitando meu cérebro, escuridão em três quartos e banheiros. Luzes acesas por
que o sol fugiu, esmagando o brilho devorado em quase duas estações.
A
gente teve uma conversa e a possibilidade de procurar outro canto pra viver
entrou no jogo. Mas ainda tinha sol no quintal imenso, o Chico Buarque Modesto
brilhava e se encantava. No jardim, também.
Foi
quando afinamos a voz em um último som decisivo: “Vamos ficar por enquanto”.
A
paixão pela casa. Como se fosse única.
E
isso me possibilitou a ideia de conversar com os pedreiros. São eles que constroem
tijolo por tijolo num desenho mágico.
RUA DOCE MISTÉRIO Conheci Edgar numa noite estapafúrdia Ele sequer imaginava que eu, aos dezessete anos, fazia licenças poéticas Vár...