domingo, 24 de julho de 2022

CONSTRUÇÃO >> Sandra Modesto

 De tarde o barulho se aquieta. Depois das cinco e meia, que é quando a empreitada entoa a canção da despedida.

Amanhã começa tudo de novo, mas pode ser com outros acordes. Porque o som da britadeira, dos operários passando a pá de cal com força pelo patamar. Raspando as mãos como se fossem quadros de arte, respingando tintas pela janela do meu quarto, zonzo e inocente. Eu sentei mirando naquele espetáculo bêbado os cacos de telha voando na minha cama.   

Quisera eu soubesse quanto tempo duraria a eternidade.

Nessa garupa desse veículo chamado vida.

Antes dessa história, antes desses dias. Mas deixa eu contar o início...

Moramos numa casa há treze anos. Uma pré-adolescência afinal, envolta em planos de marcar as linhas do coração. Como se a morada fosse o corpo da gente. Que fala, ouve, canta, lê e silencia.

Barulheira agitando meu cérebro, escuridão em três quartos e banheiros. Luzes acesas por que o sol fugiu, esmagando o brilho devorado em quase duas estações.

A gente teve uma conversa e a possibilidade de procurar outro canto pra viver entrou no jogo. Mas ainda tinha sol no quintal imenso, o Chico Buarque Modesto brilhava e se encantava. No jardim, também.

Foi quando afinamos a voz em um último som decisivo: “Vamos ficar por enquanto”.

A paixão pela casa. Como se fosse única.

E isso me possibilitou a ideia de conversar com os pedreiros. São eles que constroem tijolo por tijolo num desenho mágico.

 

domingo, 26 de junho de 2022

A VENDEDORA >> Sandra Modesto

 

Tudo começou em fevereiro quando eu anunciei pelas redes sociais: “Em breve"

Depois: "Lançamento em abril"

E o alvoroço se fez. Qual o produto que eu ia lançar? Eu me segurei no limite da ansiedade.

Recebi o PDF do livro para revisão, a foto da capa do livro, o miolo do livro. Tudo era livro. Tudo. Assim como a vida, que às vezes, nos leva  a pedir socorro

Bom, o "Era Sábado" é um livro de crônicas. Como divulgar o livro sem ele nas mãos? Eis minhas ideias...

A epígrafe é o trecho da letra de João e Maria de Chico Buarque e Sivuca. Eu postei uma imagem da música explicando que a primeira crônica do livro tinha o título da música.  

O David, da crônica “A Casa de Davi", é o meu vizinho pequerrucho, ele perdeu o vovô  no final de 2020. Chorou pela calçada da minha casa. Abri o portão, abracei- o bem forte e disse:

“Seu vovô morreu, mas estará sempre vivo aqui oh, dentro do seu coração."

Vi muitas meninas na  calçada da casa do David. Por  vários dias. Vieram para se despedir do avô. Fui até lá. Conversamos sobre sonhos, sobre o adolescer. Tiramos uma foto com o sol aberto, a luz estava linda. Divulguei a foto e contei sobre minha personagem da vida real.  Mas cadê o livro? Chegou dia 2 de maio. 4 de maio, lançamento virtual com o editor. Via Youtube.

O lançamento presencial foi dia 10. Com filho, marido, muitas professoras e muitos professores, muitas amigas do meu filho, me prestigiaram comprando o exemplar. 

Um dia antes, eu fui vacinada com a quarta dose da vacina. Ainda estou vendedora. Pelo status do Watsapp, pelo Twitter, pelo story do Instagram. Dos 129 livros, 1 é meu. 128 livros. Restam 38. Calma, gente. Eu espalhei livros.

Nas bibliotecas de rua, na biblioteca da fundação cultural do bairro onde eu moro, na biblioteca municipal, presenteei quem não pode comprar, fiz parcerias, sou a autora que pariu o terceiro livro. Cuido dele. Porque um bebê precisa de muito cuidado.

O mais bacana é receber fotos dos leitores com o livro e suas leituras sobre minhas crônicas.

E assim é Era Sábado. Com jeito de gentes. 

Por enquanto, preparando o segundo lançamento presencial. Que tal?

“De novo com a coluna ereta

Juntar os cacos, ir à luta

Manter o rumo e a cadência

“Esconjurar a ignorância, que tal”? (Chico Buarque de Holanda e Hamilton de Holanda)

 

A PROSA E O POEMA >> Sandra Modesto

 

O que é prosa? O caderno caiu no chão da cozinha. Ela teve preguiça diante da cena por tanto amor. Que agora, esfria e acende. Rima e se faz num sábado.

Pegou o ônibus no espaço de sempre.

Acenou pra o motorista. Há trinta anos o percurso contínuo, olhos e ouvidos atentos às conversas. Renderiam crônicas. Encontros. 

Queria uma prosa boa, uma história quente, não sabia na verdade, se queria uma trepada ou sexo com amor. Ah, naqueles tempos em que nada impedia uma paixão que fervia por todos os poros, no carro, no canto do amanhecer, a gente tinha, 20, 30 anos. Aos sessenta anos... Bem, depois disso, no colchão macio é uma boa pedida.

Prosa é a conversa de todos os dias. É o abraço no cotidiano. Um livro de crônicas requer um olhar apurado, ao mesmo tempo, é um gênero merecedor de prêmios. Por isso, eu adquiri vários títulos clássicos e contemporâneos escritos por mulheres.

O cantor Gilberto Gil disse um dia desses: “É preciso acabar com essa história de achar que a cultura é uma coisa extraordinária. Cultura é ordinária!”.

Escrevendo este texto ouvindo Drão perguntei:

“Cadê aquele seu poema?” (Sim, foi uma mensagem no Watsapp.).

Qual poema? Tem mais de um? Tenho.

Onde estão?

Não sei.

Eu me lembro de uma pasta que eu fiz no computador, pra ele. Procurei.

 “Entre minhas mãos tu escapas como se não existisse amor
Sob a retina de meus olhos vejo-te dobrar a esquina
Não sei se voltarás de um deserto ou de um oceano.
Se ainda frágil ou mais madura.
Ao som dos meus quase risos quase lágrimas
Ouço teus passos todas às vezes mais silenciosos
Não sei se te ouvirei, meio a melodia dos teus beijos
tua boca a dizer "Te amo".
Amar é assim um desassossego”.

Lahus

Pra quem ele escreveu, eu não sei. Mas é foda!

 

quarta-feira, 2 de março de 2022

NATUREZA >> Sandra Modesto


 







Esparramava- se de vez em quando. Nascia em galhos.Verdes. Em folhas que curavam dores, em infusão, acalmavam peles, viravam chás. Curavam feridas e fechavam lágrimas das mães.

Quando secos, retorciam quebrados e olhavam cheios de medos o fogo que matava- os.

Carregava- se de frutas. Frutos das famílias com quintais. Sem veneno, com afeto. Esparramava-se de vez em quando. Os braços acarinhando o filho, fortalecendo a filha. Nesse esparramar, virava jardim suspenso. Pernas pelas paredes, muros em fotografias de cidade em cidade.  De tanto espichar píncaros da natureza, refestelava a língua para brotar por várias estações. Espia pela janela um par de roupas em farrapos, lembra-se da vizinha transformadora de peças velhas fazendo sorrir as moças, que a partir daquela hora, sentiam – se bonitas, calmas como ramalhetes.

No meio do dia, peço ajuda ao sol. E o ritmo de um farfalhar me faz árvore à busca da delicadeza perdida.

Porque desaprendo, ignoro pedras rolantes, toco a lentidão e sinto pela primeira vez, sou efêmera. Espicho num chão da sala meus troncos à mesa rústica, que alguns dizem ser um banco, eu não sento, para mim, é mesa. Pequena, muito rica na arte com os pés de raízes.

Espio a cama de uma mulher, ela agradece minha companhia. E me abraça esguia, parece forte como os galhos ainda não esmagados.  A mulher de repente, venha a ser eu.

Esparramo- me de vez em quando. E de tempo em tempo, volto a florir.

 A mesinha centenária ocupa a história, vasta de personagens, transforma – se em peça principal e se ocupa de livros. Mais uma vez, espicho meus troncos já meio doídos, mas doidos para viver um pouco mais.  Esparramo meus pés nos vãos abertos da mesinha. É um exercício memorial. Agarro páginas, uma nuvem insiste um anoitecer final. Também sei gargalhar. Minha risada é tão alta que transborda os mais tímidos silêncios. Invento uma bailarina, e livre, sem música, sigo a dança do vento lá fora.


Imagem: Pixabay


sábado, 5 de fevereiro de 2022

RETROSPECTIVA >> Sandra Modesto

 Meu pai me chamou e disse que estava com câncer. Eu tinha que contribuir com o orçamento familiar. Nossa vida sofreria mudanças daquela hora em diante.

Fiquei meio assustada, mas, lá fui eu, ser “alguém” na vida. O trabalho era em uma empresa de telefonia.

Entrevista, uma prova de português e fui admitida.

Sempre gostei de sapatos. Usei o primeiro par de sapatos de salto alto aos 13 anos. Levei um tombo na Rua 22.

 Com o meu primeiro salário, adivinha o que comprei? Um par de sapatos de grife.

O tempo avançou um pouquinho e minha vida como professora começou aos vinte e um anos. Primeira gravidez, escola de periferia, crianças em fase de alfabetização.

A escola era muito distante da minha casa. Não havia ônibus e eu ia e voltava a pé, debaixo de um sol escaldante, e a barriga crescendo, crescendo...

Com a gravidez no final, a diretora me trocou do turno vespertino para o noturno.

 Mas o contrato na escola acabou. Voltei dois anos depois. Trabalhando com ensino fundamental dois e ensino médio.

Hoje consigo lembrar-me vários momentos. Um deles me entristeceu muito. Aconteceu numa cela de uma penitenciária quando exercia o magistério simultaneamente com a profissão de repórter de uma TV local. Fui cobrir uma reportagem na cadeia:

– Professora, professora, você lembra de mim?

– É ela! Ficou famosa hein, professora?

Cheguei mais perto. Recordei- me que tinham sido meus alunos. Senti uma mistura de revolta, desespero, impotência.

“Então eu fui professora deles e eles vieram parar aqui? Eu não servi pra nada”...

Não, não era isso. O problema era a desvalorização da Educação. Aqueles alunos na cadeia eram vitimas da sociedade desigual, falta de estrutura familiar. Uma série de questões graves.

E Há três anos, tudo piorou. Pátria amada Brasil”. Inferno!

 

Outubro de 2002...

Eu trabalhava em uma escola da periferia com minhas quatro turmas dos sétimos e oitavos anos, quando idealizei um projeto literário envolvendo o centenário de Carlos Drummond de Andrade. Sem recursos tecnológicos e falta de livros literários na biblioteca, reuni a turma e contei quem tinha sido Drummond, recitei trechos de poesias. Para fechar a parte principal, ensaiamos um musical baseado no poema, “José”.

Tive a ideia de sugerir a pauta ao canal de TV. Repórter, cinegrafista, microfones, entrevistas. A matéria veiculou em rede regional, estadual, em um canal fechado de grande audiência. Momentos de aplausos e sorrisos da equipe pedagógica. Alunos com olhos brilhando.

Até hoje, reencontro muitos que se recordam de mim, a gente conversa, e eu fico sabendo que terminaram os estudos, alguns fizeram cursos universitários de música, teatro, pedagogia ou cursos técnicos. Estão aí, buscando dignidade.

“AOS ESFARRAPADOS DO MUNDO E AOS QUE NELES SE DESCOBREM E, ASSIM DESCOBRINDO- SE, COM ELES SOFREM, MAS, SOBRETUDO, COM ELES LUTAM.” Paulo Freire em PEDAGOGIA DO OPRIMIDO.

 

 

 

domingo, 30 de janeiro de 2022

PETISCOS DE DOMINGO >> COM AÇÚCAR- COM AFETO- COM NARA


Acordo sempre depois das dez da manhã. Só consigo tomar café sem açúcar, forte, quente, vivo. Durante toda a minha infância e adolescência minha mãe nos proibiu de tomar café. Era chá. Doce, de canela, com afeto. A primeira vez que senti gosto de café, eu tinha 18 anos, quando entrei para o mercado de trabalho. Numa empresa que servia café, experimentei e pronto. Tomava café na empresa, não tomava café em casa. A explicação da minha mãe era a de que prejudicava o sono. Dona Jacinta e suas razões.

Nesse texto nostálgico, meio vida aos 61, é apenas uma forma de começar. Na sexta-feira à tarde, sob um calor de 34 graus, deitada no sofá, assisti – O CANTO LIVRE DE NARA LEÃO. Tenho por mim, que de um jeito doce e ao mesmo tempo forte, Nara revolucionou a música brasileira. Musa da bossa-nova rompeu preconceitos confrontou a ditadura militar. Sem alterar o tom de voz. O que permitiu a ela, abrir espaços para as mulheres. Mas o documentário trouxe á discussão rasa e imprecisa, a música, “Com açúcar com afeto”. Eram os anos setenta, Nara pediu que Chico Buarque compusesse uma música sofredora, dando vazão ao amor de um casal típico onde o homem era o macho livre. No documentário, Chico explica que o pedido foi de uma música sofredora. Ele fez. Ela cantou, ele também. As feministas reagiram à letra, o que é perfeitamente compreensível. O importante é a desconstrução do machismo. Apesar do lirismo na música, a letra é dos anos setenta.

Não havia movimento feminista.

Brasil 2022, discutindo o Brasil em 1976. Nara cantou “Os Saltimbancos”- (História de uma gata) cantou Dueto, cantou muito Chico Buarque. Era a favor da pílula, do divórcio, e parou de cantar quando foi mãe, para se dedicar aos filhos.

Deixemos a interpretação de com açúcar com afeto, no coração. Chico Buarque apoiou a causa feminista, o que o torna mais lindo. Não vai cantar mais a música, acredita que se Nara estivesse viva, também não cantaria. Remover a música da história é impossível, estará no youtube e nas plataformas digitais. Fernanda Takai já afirmou que continuará a cantar a música nos seus shows.

O CANTO LIVRE DE NARA LEÃO está em cartaz no Globo Play.

Sandra Modesto 


RUA DOCE MISTÉRIO >> Sandra Modesto

  RUA DOCE MISTÉRIO Conheci Edgar numa noite estapafúrdia Ele sequer imaginava que eu, aos dezessete anos, fazia licenças poéticas Vár...