domingo, 9 de agosto de 2020

A Última crônica >> Sandra Modesto

 Crônica inédita publicada hoje no site cronicadodia.com.br

Domingo sempre mostra algo nostálgico. Fico meio borocochô. Brigo comigo, faço as pazes, volto e depois me aprisiono. E o Brasil está triste. Cada dia mais triste. Resolvi contar um pouco da minha história...

Eu sou a filha mais velha de um casamento Inter - racial.

Imagino as inúmeras situações racistas sofridas pelo Carlos. Meu pai chamava – se Carlos.

Quando ele alcançou uma posição social com um salário melhor, usava muitos perfumes, ternos de linho, abotoaduras, inúmeras canetas. O colecionador de sonhos.

O racismo estrutural estava lá, escancarado. Em momentos inesquecíveis...

Nos anos setenta, o diretor do clube social recreativo disse não, quando meu pai quis ser sócio.  A resposta: - “Aqui é só para gente branca.”.

Dez anos depois os acionistas da elite migraram para outro clube mais requintado. E o diretor mudou de ideia. Meu pai conseguiu comprar. Eu e minhas irmãs íamos.  O Carlos nunca frequentou.

.Nunca me esqueci de uma cena: A primeira vez que vi meu pai chorar. Eu tinha vinte e sete anos. Até então, pensava que homem não chorava.

Compreendi. Meu pai não era tão forte, era frágil, era humano, era meu pai.

Na janela entreaberta do meu quarto, abro meu armário e lá estão alguns terninhos de linho que usei quando fui jornalista, assessora de imprensa. Pego o paletó xadrez que herdei do meu pai. Customizado porque tirei as mangas e apertei a cintura.  Tiro meu pijama, visto o blazer. Olho meus perfumes. Escolho um. Fico cheirosa.

Já escrevi várias crônicas para o meu pai.

Hoje é a última

 A última crônica.

Vou ali, ajeitar uma foto no aparador. E chorar um pouco. 

domingo, 12 de julho de 2020

Reels

https://photos.app.goo.gl/TX4KW26oEsXifLDYA

Triturador de sonhos >> Sandra Modesto

Triturador de sonhos

Começaram a namorar durante o curso de teatro amador.

Uma história de amor forte. Ávida para o real. Juntaram as mochilas. Foram morar juntos. 

 Noites e dias de amor, orgasmos, delírios e suspiros.

A pandemia chegou.  Assistiam aos possíveis vídeos online.  A ansiedade deu sinal. Um belo dia de domingo, exaustos de Brasil, alguma coisa tinha que acontecer.

 _ Olha! Isso não está certo. O  presidente com  COVID, e o povo desejando que ele morra!

_ O quê? Você votou nesse cara?

_ Votei.

_ E não me contou?

_ Não. O voto é secreto.

_ Ah, tem razão. Não votei nele.

_ Não? E me contou agora?

_ Sim. O voto é secreto. Eu votei no professor. Fiz campanha.  Sabe naquela manhã de setembro de 2018?  Enquanto você virava pra o canto da cama, eu fui às ruas virar votos. O dia em que mulheres de todo o Brasil, se juntaram ao movimento “ELE NÃO”.

No segundo turno, fui ao local de votação com um livro. Ah, você não reparou. Escolhi o livro de uma escritora preta, mineira, talentosa. Você sabe pouco de mim. Gosto de músicas, mas... Deixa pra lá.

Ele:

 _  Não interessa. Você votou errado. Perdeu o  voto.

_ Não, engano seu. Trocar um professor por um fascista? Eleito  sem ter ido  aos debates... E atualmente, mata o povo todos os dias. Esmaga os sonhos da gente. 

Tudo certo. O casal parou. Encenação perfeita. O projeto- piloto estava ali. O roteiro pronto.

O título: “TRITURADOR DE SONHOS”. A peça teatral usará interferências artísticas:

“Tenho sangrado demais/ tenho chorado pra cachorro/ ano passado eu morri/ mas esse ano eu não morro” (Sujeito de sorte/ música de Belchior)

“a gente combinamos de não morrer” (Conceição Evaristo/ no livro- OLHOS D’ÁGUA - página 99).

 


domingo, 5 de julho de 2020

Projeto - piloto >> Petiscos de domingo>>> Sandra Modesto


Apresento a vocês meu projeto- piloto.

PETISCOS DE DOMINGO

Vou resumir meus petiscos:

De 2012 a 2017, eu publicava meus textos pelo Facebook. Sempre aos domingos. Eu escrevia crônica retratando algum fato do meu cotidiano. As pessoas gostavam e eu que tenho meu lado jornalista por experiência, fazia uma chamada durante a semana, para que meu público fiel aguardasse. Denominei os textos como um quadro literário (Sou graduada em Letras e atuei como professora de Português por 27 anos em escolas estaduais e municipais de Ituiutaba e região).

Pois bem, em 2014 eu descobri a plataforma Clube de Autores.  Reuni todos os meus textos dos “Petiscos”, fiz índice, minha professora de literatura da faculdade assinou o prefácio, meu filho fez a arte da capa. Decidi o título do livro: “Por favor, acenda a luz”.

Mas não registrei a obra. Eu queria meus textos num livro, era o meu sonho.

Em 2015, consegui publicar por uma editora. O livro teve uma alteração no título: Acenda a luz. Obviamente, eu apaguei a publicação da plataforma Clube de autores. Mas todos os textos dos meus dois livros: O Acenda a luz e o mais recente, Tudo em mim é prosa e rima, foram possíveis graças aos textos dos Petiscos de domingo.

Eu parei de publicar no Facebook em 2017. Porque fui divulgar meus livros, espalhar meus livros presencialmente e virtualmente. Em julho do ano passado, meu filho e meu marido pediram que eu voltasse a publicar aos domingos, Petiscos de domingo. Ganhei uma arte e recomecei. Dai, voltei à plataforma clube de autores e fiz meu livrinho com vinte crônicas. Comprei um exemplar. É este.

Imagens:








 


RUA DOCE MISTÉRIO >> Sandra Modesto

  RUA DOCE MISTÉRIO Conheci Edgar numa noite estapafúrdia Ele sequer imaginava que eu, aos dezessete anos, fazia licenças poéticas Vár...