domingo, 5 de junho de 2016

Vida, vida, viradas.

#Petiscos de domingo.

Neste domingo com inverno chegando...

Vamos saborear uma história quente?
Rapidinha...

DOIS PONTOS
Sandra Modesto.
Marcos leva Gabriel pra o banheiro e os dois brincam. O pai, de ser criança, o filho, de ser gente grande. Gabriel tinha quatro anos e já queria tomar banho sozinho. Marcos ensinava ao filho, brincadeiras como: Fazer bolhas de sabão, fingir que lavou os cabelos, deixar o corpo inteiro falar sozinho que em breve, transformações aconteceriam.
Gabriel e Marcos; A dupla do "barulho".
 E, mais um banho escorrendo infância, vida, risos a fora.
Ana chega pra dar bronca.
- Meninos! Pare de bagunça, o jantar já está servido.
Os meninos obedeciam... Meia hora depois da ordem.
- Oi, amor! Que saudades! Como foi seu dia?
- Cansativo, porém produtivo. Fechamos mais um contrato. A agência está crescendo. Feito o amor que sinto por você. Cada dia te amo mais, sabia?
Jantar a três, três amores. Um estilo de vida moderno, nos dias atuais, é comum a mulher se dedicar ao mercado de trabalho e o marido cuidar da rotina da casa. Os novos casamentos não seguem modelos pré- estabelecidos por convenções sociais.
Na manhã seguinte, Marcos e Ana acordavam juntos se beijando como se fosse à primeira vez.
Ele preparava o café, opinava sobre a roupa e o cabelo da publicitária que ele mais admirava no mercado.
Mercado? Era com ele. Uma lista bem feita e as compras eram certeiras. Tudo que cada um gostava de comer. E mais! Produtos para manter a casa em ordem, limpa e cheirosa, enfim, "um marido enviado por Deus"! (Ana dizia sempre para amigos e familiares).
Gabriel estudava em uma boa escola, já fazia natação, no próximo ano? Aprender Inglês. A agenda já ia aumentar.
Um dia o pai sentiu falta de voltar ao trabalho. Pensou que o sentimento demoraria mais a chegar, mas, chegou. Um telefonema deu um empurrãozinho à reativação do sonho. Uma empresa do setor de engenharia e arquitetura contribuiu para o concreto. Marcos havia espalhado currículos a uma enorme lista de contatos eletrônicos. O dia chegou. Sim!
Entrevistas, exames, tudo certo. Recomeço.
Ana precisou contratar uma faxineira e uma babá. Gabriel estranhou um pouco, porém logo se adaptou. Criança é bem adulta em algumas ocasiões. Não fazem bicho de sete cabeças das novas realidades.
O casal passou a viver um amor maduro, consciente, forte, "tudo tem seus momentos certos". Marcos confessou á amada. Amante. "Ficante". Estonteante...
Certa noite, Marcos estava sozinho na varanda, apreciando a despedida do sol e deparando-se com o brilho da lua que mesmo um pouco tímido, anunciava que estava pronta.
Os pensamentos agitavam as memórias do observador. Fugir?Ele ousou enfrentá-las.
Há doze anos Marcos não era de Ana:
No ponto do ônibus, Carolina esperava pra ir pra casa, depois de um longo e cansativo dia de trabalho.
Ela estava ali novamente... Igual a tanta gente.
 Muitos caminhos, e tantos desejos de um jantar quentinho. Beijinho carinhoso do filho, beijo de língua do marido.
Aflito Marcos não via a hora de Carolina chegar.
Quando ela apontava na esquina abaixo, ele já sentia o seu cheiro de jasmim, imaginava dando- lhe carinhos: Beijo no roçar da nuca, mordidas ao pé da orelha, apertos pra vibrar a emoção contida, despida de todas as emoções presas.
A pressa daquela noite estava diferente, maior e mais quente. O outono estava terminando. E Carolina, quase chegando.
Marquinhos de dois aninhos, de banho tomado, com cabelos limpinhos lavados com o xampu que Carolina pedia sempre pra comprar. O papai Marcos era muito apaixonado pela rotina da família. Sabia agradar Carolina.
A mesa estava perfeita. Arroz branquinho, feijão vermelhinho, bife acebolado, saladinha, abobrinha com jiló. E só: O banquete estava feito. Os dois sempre davam um jeito de transformar o simples em luxo! Ou, valorizar o luxo nas coisas simples que a vida oferecia.
Já passava das onze horas, Marquinhos adormecera, Marcos não sentiu o cheiro de Carolina, beijos sem fim, que os dois trocariam. Alguém bate à porta.
Marcos corre para dizer a ela da preocupação. Coloca a comida pra esquentar num piscar de olhos.
Abre o coração pra receber Carolina. Mas, ela não veio. Não era Carolina.
Pelo menos, não do jeito que Marcos sempre quis.
Era alguém, Marcos não conhecia. Apenas ouviu algumas palavras que jamais esquecera;
- Senhor Marcos Santos? Só falta um corpo pra ser reconhecido. Segundo testemunhas, é o de sua mulher.
- Não, Carolina, não!
Sem Carol, Marcos teve que se armar em forças, dar amor pra Marquinhos, trabalhar sem parar para pagar a creche, comprar de tudo, viver sozinho.
Até Marquinhos deixou o pai. Uma grave doença e ele foi ao encontro da mãe... "Muitas vezes reunimos forças para que continuemos". Ou então... Superações?
- Pode ser.
Ao final:
Novos personagens. Não era Carol.
Não era Marquinhos.
Era apenas a vida, possibilitando surpresas. Quimeras.

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