quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Não amaremos >> Sandra Modesto

 Não amaremos

Se eu disser que vi você

 sem dizer o poema

Eu escrevi falando de nós. A chuva no meio da noite, o sorriso no ponteio da gente

Se eu inventasse um amor de abraçar a nuvem no canto do sol

Nossa dança embriagada, o beijo de estalo, o povo assistindo, o brilho do nosso olhar e dos nossos sorrisos. 

Se eu nunca mais te visse

Se eu escorregasse nesse lamaçal da vida

 Se eu mudasse de ideia

 Envolvesse nossas pernas na quentura da noite calma num verão imenso.

Eu olharia no grito da manhã, os galhos balançando, a terra molhada com cheiro de vida. 

E os meus versos

Pode acontecer um poema com letras grandes num cartaz: eu te amo, eu te amo, eu te amo, & entornasse a ternura na toalha branca.

Se eu te dissesse adeus. Um adeus pequeno. Interrompendo a inquietude.

È este o poema. Um dilema sem fim.

É a vida cuspindo exaustão. A preguiça, o suspiro, o bocejo.

O resquício de alguma estrofe, o fio de uma história mal escrita, sei lá, é o tempo. E isso é o que resta.

Se eu disser, que é tudo invenção desse momento

Essa saudade desvairada. O nosso retrato bonito na porta da geladeira.

Talvez, seja assim, o jeito menos sofrível de não amar.

Se mudarmos de ideia, amaremos o vento, onde tudo começa.

 

Não amaremos >> Sandra Modesto

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